“Alguém te diz o que você queria ouvir”, diz ministra sobre fake news

         Presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, tratou do tema no encerramento do seminário "30 anos sem Censura - A Constituição de 1988 e a liberdade de imprensa”, realizado em Brasília.

         A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministra Cármen Lúcia, disse nesta segunda-feira, 11, que as fake news (notícias falsas) podem não ser uma novidade, mas prosperam porque “alguém te diz o que você queria ouvir” e ouve, portanto, sem criticar. A ministra tratou do tema no encerramento do seminário “30 anos sem Censura – A Constituição de 1988 e a liberdade de imprensa”, realizado em Brasília.

         “Fake news pode não ser uma novidade, mas pra quem é do interior como eu, já deve ter visto algum mascate numa praça gritando e, eu digo tranquilamente, porque eu adoro uma praça e gente, pode ser essa aqui ou de Espinosa (cidade onde a ministra passou a infância), tem a mesma graça, ele vai gritando, ‘se aproxime, freguês amigo, que aqui tem uma planta que não deixa cair cabelo, não deixa cair alegria, não deixa cair sua esperança’. Deve ser fake news mesmo, porque minha esperança não depende de uma planta”, comentou a ministra.

         Na avaliação de Cármen Lúcia, as pessoas tendem a querer que “alguém nos entregue aquilo que é a ilusão da segurança de alguma possibilidade concreta e imediata de ser feliz”.

         “Talvez a fake news prospere porque alguém te diz o que você queria ouvir ou não precisa de pensar e ouve, portanto, sem criticar. E ai eu ponho a questão da liberdade mesmo, antes da liberdade de expressão, quem abre mão da sua liberdade não tem segurança, não tem capacidade crítica e está fadado ao efeito manada”, disse Cármen.

         “Você deixa de ser o indivíduo, pelo qual tanto lutamos pela sua dignidade, e não há dignidade sem liberdade, para sermos apenas alguém que entra numa massa e, portanto, perde a sua individualidade que é a grande conquista da humanidade e do direito constitucional contemporâneo”, concluiu a ministra.

Estadão - 11/06/2018

Gigante das redes sociais sofre seus primeiros reveses

            Depois de anos de crescimento robusto em faturamento e usuários, o Facebook começa a enfrentar os primeiros reveses no que parece ser uma mudança de percepção do público em relação à rede social —ou, na linguagem da empresa criada de início para classificar a beleza das estudantes de Harvard, suas primeiras "descurtidas".

            O ataque mais recente veio da Unilever. Na semana que passou, a multinacional ameaçou cortar os anúncios dirigidos ao Facebook e à outra perna do duopólio digital, o Google, se não houver mais transparência e combate às "fake news" e ao conteúdo tóxico.

            Seu poder de persuasão vem dos US$ 9 bilhões que gasta em anúncios por ano para promover marcas como Dove, Omo e Hellman's.

            Antes dela, a Procter & Gamble, maior anunciante mundial, uniu ação às críticas e cortou US$ 100 milhões em marketing digital em um trimestre de 2017. Segundo a empresa, não houve nenhum impacto nas vendas após a decisão.

            No lado dos usuários, o Facebook registrou ao final do ano passado declínio no tempo médio gasto na rede social nos EUA, seu principal mercado: 50 milhões de horas a menos por dia, a primeira queda desde que a empresa foi criada.

            A perda se dá principalmente entre os mais jovens, segundo a consultoria eMarketer: 2,8 milhões de pessoas com menos de 25 anos deixaram a rede em 2017; outros 2 milhões devem sair em 2018.

            Em Washington e na Europa, executivos têm sido chamados a dar explicações sobre a divulgação de notícias falsas e as práticas monopolistas — de acordo com a mesma consultoria, Facebook e Google detêm 50% da publicidade digital mundial e 60% da americana.

            Em sua defesa, o Facebook insiste na tese de que não é uma empresa de mídia e, assim, não tem controle sobre o que veicula — apesar de divulgar conteúdo e cobrar pelos anúncios que o acompanham, a definição clássica de uma empresa de mídia. Tudo o que não quer é estar submetido às mesmas regulações e grau de escrutínio.

            Esta Folha já escreveu que gigantes da tecnologia se tornaram também gigantes de mídia. Devem, pois, assumir responsabilidades referentes à segunda condição, prestando contas do que transmitem.

            Em janeiro, na tentativa de livrar-se da cobrança crescente, Mark Zuckerberg decidiu que o algoritmo que rege as interações entre usuários seria mudado de modo a privilegiar postagens pessoais, em detrimento das promovidas por marcas e empresas.

            A medida deve banir de fato o conteúdo divulgado por veículos de jornalismo profissional e, ainda que indiretamente, facilitar a propagação das "fake news", em geral de muito mais apelo e estridência que as notícias factuais.

            De fato, nos últimos quatro meses as interações em páginas que produzem "fake news" subiram 61,6%; nas de jornalismo profissional, houve queda de 17%.

            Por tudo isso, a Folha anunciou, em 8 de fevereiro, que deixou de atualizar com notícias sua página no Facebook.

            As redes sociais surgiram com a promessa de ser um ambiente de convívio e intercâmbio de ideias e dados, e em boa medida atingem esse objetivo. Mas as empresas por trás delas se tornaram um dos poderes emergentes de nossa era.

Editorial Folha de S. Paulo 18/02/2018.

Nem mesmo o Pontífice está livre da praga das notícias falsas

            No dia 2 de abril, o site ThereIsNews.com estampou no alto da página a seguinte manchete: “Papa Francisco cancela a Bíblia e propõe a criação de um novo livro sagrado”. O texto, escrito em inglês, levava a etiqueta de “breaking news”, aquela usada pelos telejornais quando colocam no ar uma notícia bombástica, e ainda contava com uma versão completinha em espanhol. A “notícia”, de autoria do “repórter” Sr. Lobo, “informava” que o Pontífice havia surpreendido o mundo inteiro ao dizer que a Bíblia era um documento ultrapassado e que precisava ser revisto. “Contava” ainda que o Papa faria uma reunião com a cúpula da igreja católica nos próximos dias e que, nos bastidores, o novo documento já havia sido batizado como “Bíblia 2000”.

            Até o último sábado (26/05) as versões em inglês e espanhol dessa “notícia” continuavam disponíveis para leitura na internet. Segundo o CrowdTangle, ferramenta do Facebook capaz de medir a popularidade de uma URL nas redes sociais, os dois links somados já tinham sido postados por 67 páginas no Facebook e já colecionavam mais de 26 mil interações (curtidas, compartilhamentos e comentários) apenas nesta rede social. Entre elas, havia centenas de postagens raivosas do tipo “Tirem esse demônio do Vaticano!” ou “[Esse Papa] É uma vergonha para a igreja católica. Deve ser deposto!”. Todas iniciando longas discussões sobre o caráter e a real capacidade de Francisco para liderar a igreja católica.

            Pouquíssimos foram os leitores desse material que se deram ao trabalho de navegar pelo site que havia produzido aquela “informação” e constatar que o ThereIsNews.com – assim como o HayNoticia.es, responsável pelo texto em espanhol – se posiciona como “uma página de humor, cujo propósito é divertir”. Que diz claramente que “seu conteúdo é ficção e não corresponde à realidade”. Ou seja, que qualquer “notícia” por eles postada não tem qualquer verossimilhança. Não é uma notícia. Pouquíssimos, no entanto, foram os leitores que pararam para respirar diante daquela “breaking news” e decidiram investigar mais sobre seus autores antes de compartilhar o conteúdo na internet. Seguiram a manada do “na dúvida, compartilhei”.

            E essa obviamente não foi a primeira – nem muito menos – a última notícia falsa (ou brincadeira levada a sério por muitos) envolvendo o Papa. Há casos hilários que revelam a ingenuidade ou a pré-disposição dos seres humanos a não refletir sobre aquilo que recebem.

            Em novembro do ano passado, um vídeo postado no Youtube “mostrava” Francisco dançando merengue na Colômbia. A gravação, que exibia um senhor sacolejando, teve mais de 150 mil visualizações desde então e – como não poderia deixar de ser – suscitou ódio e ira contra o líder da igreja católica. Foi preciso que o site Snopes.com, que faz checagem de fatos nos Estados Unidos e é membro da International Fact-checking Network (rede da qual a Agência Lupa também faz parte), entrasse na história e a classificasse como falsa. A análise dos checadores mostrou que o vídeo era apenas de um homem parecido com o argentino Jorge Mario Bergoglio que havia se fantasiado de Papa para curtir um merengue. Nada mais.

            São “notícias” como essas duas que levaram os jornalistas italianos Nello Scavo e Roberto Beretta a escrever o livro “Fake Pope” que acaba de ser lançado na Itália pela editora San Paolo. Na obra, os dois falam sobre 80 fake news contra Francisco, revelando que nem o Papa está livre dessa praga.

            Na obra, há uma série de fotos falsas que circulam pelos rincões da internet e que merecem atenção. Numa delas, por exemplo, o Papa aparece em primeiro plano supostamente emanando uma sombra diabólica, com chifres e tudo, contra uma coluna de mármore à sua esquerda. Para evidenciar a manipulação, os jornalistas localizaram a imagem real e indicaram como a alteração havia sido feita.

            Segundo a crítica do jornal italiano LaStampa, Scavo e Beretta, reconhecidos por cobrir a vida eclesiástica há anos, acertaram em cheio ao se debruçar sobre as fake news do Papa. “Fake Pope”, ainda sem tradução para o português, é “um livro fácil de ler com um valor documental objetivo e inegável”.

Este texto foi publicado pelo site da revista Época em 28 de maio de 2018.