sexológica

masturbação

         A iniciação sexual acontece normalmente com a masturbação, na puberdade ou na adolescência. E seria apenas um percurso entre os primeiros desejos e a primeira relação sexual se não persistisse na juventude e na maturidade. Como somos partes de uma das poucas espécies, em tese, monogâmicas e as mulheres sem marido não podem copular com os homens casados, e também os homens solteiros não podem ser recebidos pelas mulheres esposadas, a masturbação acaba sendo um recurso de muitos adultos contra a carência e a solidão.
         A superpopulação da espécie humana é uma segunda agravante. Com o acirramento da competitividade, a racionalidade é levada a sobrepor-se, às vezes completamente, aos instintos, em nome da sobrevivência ou de uma boa aposentadoria. As ansiedades e fantasias sexuais, então, têm de esperar e a masturbação, assim, ganha uma função importante por conta da concepção individualista e hedonista do mundo moderno: quando todo prazer justifica os meios, a masturbação passa a ser respeitada e aconselhada como uma atitude de amadurecimento, independência e realização.
         Organicamente, porém, a masturbação não faz mais que uma muleta. Consegue, quando é eficaz, aliviar a tensão e a ansiedade com o esgotamento dos excessos de líquidos orgásticos, mas é psicologicamente frustrante e suas consequências físicas são desastrosas.
         É psicologicamente frustrante porque é um acontecimento absolutamente mecânico e, apesar de oferecer o orgasmo, não resolve a carência ou a solidão. Horas depois, quando o epidídimo ou o colo do útero estiver novamente tomado pelos líquidos orgásticos, a masturbação poderá atuar como um tranquilizante, mas será incapaz de oferecer ao corpo as respostas orgânicas de uma transa.
         Fisicamente, é ainda mais decepcionante. A masturbação acontece como uma traição, pois ludibriamos o próprio corpo. No instante em que a androsterona ou a foliculina começa a acelerar o fluxo do sangue, evidencia-se a perspectiva de que, após o orgasmo, haverá a absorção de gás cromossômico, o qual será utilizado na qualificação e na quantificação da produção e distribuição hormonal.
         O pênis em ereção está em desempenho distrátil, ou seja, está se esforçando para expulsar materiais. E o pênis em relaxamento, após a ejaculação, está em desempenho contrátil, isto é, está se esforçando para absorver materiais fisiológicos. Como não acontece a absorção de gás cromossômico, no caso da masturbação, todos os empreendimentos do corpo para a ocorrência da cópula são organicamente inúteis.
         Há o tesão, o condicionamento dos líquidos, a ejaculação, o orgasmo, os movimentos distráteis do pênis fizeram a sua parte, porém, os contráteis não puderam realizar o seu trabalho, não havia o que absorver. É como um caminhoneiro que leva uma carga a um determinado destino com a certeza de que não voltará com o caminhão vazio. Todavia, depois de descarregar a mercadoria, simplesmente não encontra uma carga para a viagem de volta.
         As papilas gustativas da glande e do saco vaginal são as responsáveis pelo recebimento da carga. Após a ejaculação, invertem-se os movimentos da distratilidade para a preponderância da gravidade nuclear, na mecânica sexual masculina, e se inicia a viagem de volta. Por meio do sangue, o corpo absorve o gás apropriado para a reformação qualificativa e quantitativa das células matrizes. Entretanto, quando se trata de masturbação, o corpo se decepciona. Há o desgaste, mas não acontece a compensação.
         E o prazer? Sim, existe o prazer na masturbação. Conversaremos sobre isso. Mas, por hora, o importante é perceber que, em se masturbar, uma parte do trato sexual não se cumpre. E convém pensar nos prejuízos.
         Podemos dizer que o nosso corpo, durante a vida, passa, a princípio, por duas idades: a genética e a cultural. A idade genética é aquela em que respondemos aos nossos estímulos irracionalmente.
         Se um filho pergunta ao pai: como o bezerrinho que acabou de nascer sabia que devia morder as tetas da vaca para se alimentar? O pai pode responder: o bezerrinho está em sua idade genética. Ele traz consigo alguns conhecimentos, os mais primários e necessários, desenvolvidos pelos seus antepassados. Não precisa ser ensinado para andar ou mamar. São atitudes que se fazem mecanicamente em acordo com as circunstâncias de medo ou de necessidade. Se sente sede, a umidade do ar o leva ao riacho.
         Também o cheiro do leite o leva às tetas. Afinal, em seu inconsciente está muito bem gravada a relação entre o leite e a fome. São centenas de milhares de anos aperfeiçoando os mesmos movimentos, considerando os mesmos sentidos, como a sede e a fome, relacionando necessidades e satisfações.
         A idade genética, no entanto, não se encerra abrupta ou completamente. Aos poucos, vai cedendo funções a uma idade cultural. O tamanho do indivíduo, por exemplo, é uma herança genética. Enquanto está crescendo, o adolescente está vivendo a idade genética dos seus hormônios de crescimento. Quando para de crescer, entra na segunda fase em que a tendência de mais ou menos estatura para os seus descendentes será determinada como consequência de suas atitudes.
         O tamanho que esse indivíduo herdou dos seus antepassados também é uma consequência do que fizeram seus pais, avós, bisavós etc. Ou alguém ainda acha que o porte de um ser é resolvido em sorteio!?
         A herança genética consiste-se em um patrimônio físico e intelectual a ser gasto num determinado tempo e em determinadas circunstâncias. É como se recebêssemos um automóvel e uma quantidade de combustível. Porque esse carro nós o recebemos em movimento e ele nunca para, numa hora a gasolina vai acabar ou o motor vai pifar. Acontece que nos primeiros anos, o automóvel viaja sozinho. Está em sua idade genética.
         Dez, doze anos mais tarde, começamos a interferir nas decisões intuitivas. O carro quer ir para um lado, mas resolvemos ir por outro. O corpo quer continuar na cama, mas nos levantamos e vamos para a escola. Começa a idade cultural. Aquela em que a cultura do indivíduo começa a se impor sobre as orientações predispostas em seu código genético.
         O motor e o combustível que recebemos junto com o automóvel podem ser qualificados ou desqualificados, economizados ou desperdiçados, decompostos ou recompostos. E esses fatores determinam até onde o carro pode nos levar, ou, se quiser, quanto tempo temos de vida, pois o motor e o combustível a que estou me referindo são as células e os hormônios.
         O estresse, por exemplo, pode desqualificar nossas células e reduzir nossa expectativa de vida. Enquanto a compreensão dos fenômenos sociológicos pode, ao contrário, qualificá-las. Uma alimentação gordurosa desperdiça hormônios, já os alimentos mais leves economizam.
         Agora, sim, podemos observar os prejuízos da masturbação. Se numa transa, depois do orgasmo, o pênis e a vagina absorvem o gás resultante da fermentação dos líquidos orgásticos; na masturbação, o indivíduo não preserva as suas condições fisiológicas. Gasta motor e combustível, todavia não se recompõe nem se reabastece. Ao contrário, o pênis e a vagina absorvem gases impróprios, em temperaturas inadequadas, os quais colaboram com a degeneração das células matrizes e das bases hormonais.
         O esgotamento físico e o envelhecimento precoce são algumas das consequências desagradáveis da falta de recondicionamento fisiológico. Outra consequência muito comum é a fragilização da coluna vertebral. Também os efeitos psicológicos da masturbação, como a perda da autoestima, podem causar estresses e colaborar com a desqualificação das condições fisiológicas. Noutras palavras, a cada masturbação, diminui-se o tempo de vida do indivíduo.
 
         Na masturbação masculina, facilmente se chega ao orgasmo, mesmo sem a presença de uma parceira. Como a ejaculação é possível sem o aquecimento de uma genitália feminina?
         Temos a imaginação, a qual nos permite simular uma circunstância apropriada com as informações que temos gravadas na memória. Com o tempo, com a experiência, formamos um padrão, um modelo da mulher ou do homem ideal e, quando a vontade é muita, podemos apelar para a cópula virtual. Temos o registro de sensações visuais, auditivas, olfativas, táteis e gustativas, todas disponíveis à imaginação. Basta, portanto, elevar a temperatura com a fricção do pênis ou do clitóris para buscar o orgasmo.
         A hipófise libera os hormônios sexuais na masturbação porque o hipotálamo percebe o desejo e tem como satisfazê-lo reutilizando as informações da memória. Se não as pudéssemos reutilizar, não teríamos a imaginação; se temos a imaginação, podemos simular o coito e ejacular, já que a ejaculação é apenas uma consequência natural da mecânica orgástica.
         Além disso, trata-se de um processo que não depende da ingestão de materiais, como a micção. É somente uma combinação de sensações e nós as temos de todos os tipos na consciência e no inconsciente. A propósito, a ejaculação não é o único resultado físico de uma combinação de sensações. Podemos nos lembrar de algumas situações, recombinar as sensações e chorar.
 
         Por que, então, a masturbação não nos satisfaz como uma transa real?
         Observe que a masturbação lida com irrealidades, com idealizações ou perspectivas e se caracteriza na consumação dessas irrealidades, isto é, idealiza um acontecimento do passado, imagina como seria se... e o encerra a seu modo. Percebe uma perspectiva, a possibilidade de uma conquista, por exemplo, e a conclui em sua imaginação, como bem entende, com uma supertransa, provavelmente.
         A consumação de irrealidades, no entanto, não nos integra a uma realidade, ao contrário, isola-nos e, pior, não estabiliza nem melhora a nossa condição: se estava só, continua só; se não tinha declarado o seu amor, continua sem o ter declarado. A transa real pode ser satisfatória porque encerra um empreendimento, porque conclui uma circunstância de interatividade social e traz informações, experiências e aprendizados para as próximas oportunidades.
 
         A prática constante da masturbação pode levar o indivíduo a gostar mais de masturbar do que de transar?
         A masturbação não tem o calor do parceiro ou parceira, mas também não tem as inconveniências de se estar com outra pessoa. O homem não tem de se preocupar com as expectativas femininas e nem a mulher tem de ocupar com as fantasias masculinas. Na masturbação, o indivíduo usa um ou mais parceiros fictícios para satisfazer apenas os seus desejos e, assim, ocupa-se somente com as suas fantasias e expectativas.
         Numa relação ideal, os envolvidos fazem exatamente um o que o outro quer, quando e do modo como quer. Numa relação real, satisfazer todos os desejos da outra pessoa, quando e do modo como ela quer, é quase impossível. Na masturbação, o indivíduo lida com parceiros fictícios e, então, na fantasia, todos os seus desejos são realizados quando e como quer. Depois de alguns anos masturbando mais do que copulando, o indivíduo pode passar a ter mais prazer com a masturbação.
         Esta possibilidade é maior quando as relações sexuais terminam com ejaculações inúteis. O sexo peniano-vaginal com camisinha ou o onanismo (o coito interrompido), organicamente, tem o mesmo valor que uma masturbação. Portanto, se o indivíduo, durante anos, alterna masturbações e relações sexuais com camisinha, masturbando mais do que copulando, provavelmente chegará o dia em que terá mais prazer com a masturbação. Prejuízo por prejuízo, pelo menos as coisas, na masturbação, acontecem com quem, quando e do modo como quer.