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DOM CASMURRO


 

Questões



1. Desenvolvendo o tema do adultério possível e mesclando-o com cinismo e dúvida, juntando a uma pura amizade de infância a possibilidade de traição, Machado de Assis criou os personagens:

a) Quincas Borba e Capitu.

b) Bentinho e Helena.

c) Brás Cubas e Virgília.

d) Marcela e Brás Cubas.

e) Bentinho e Capitu.

 

2. Identifique o trecho em que o narrador de Dom Casmurro introduz o romance e considera seu sentido profundo.

a) "Horas inteiras eu fico a pintar o retrato dessa mãe angélica, com as cores que tiro da imaginação, e vejo-a assim, ainda tomando conta de mim, dando-me banhos e me vestindo. A minha memória ainda guarda detalhes bem vivos que o tempo não conseguiu destruir."

b) "O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. É o que vais entender, lendo."

c) "Faz dois anos que Madalena morreu, dois anos difíceis. E quando os amigos deixaram de vir discutir política, isto se tornou insuportável. Foi aí que me surgiu a idéia esquisita de, com o auxílio de pessoas mais entendidas que eu, compor esta história."

d) "Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo."

e) "Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém, do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado."

 

3. (FUVEST-SP) A narração dos acontecimentos com que o leitor se defronta no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, se faz em primeira pessoa, portanto, do ponto de vista da personagem Bentinho. Seria, pois, correto dizer que ela se apresenta:

a) fiel aos fatos e perfeitamente adequada à realidade.

b) viciada pela perspectiva unilateral assumida pelo narrador.

c) perturbada pela interferência de Capitu que acaba por guiar o narrador.

d) isenta de quaisquer formas de interferência, pois visa à verdade.

e) indecisa entre o relato dos fatos e a impossibilidade de ordená-los.

 

4. (UF-MG) Todas as afirmações sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis, estão certas, exceto:

a) O discurso em primeira pessoa favorece o clima de dúvida que paira sobre o adultério de Capitu, pois o que prevalece na narrativa são as impressões de Bentinho, o narrador.

b) Além da semelhança de Ezequiel com Escobar, outro fator acentua a dúvida de Bentinho, sobre a paternidade do filho: a capacidade de dissimulação de Capitu.

c) O adultério, núcleo da narrativa, é um pretexto para se discorrer sobre a existência humana, subordinada ao poder desintegrador do tempo, que atua de forma irreversível sobre todas as coisas.

d) A alegoria do tenor italiano, que apresenta a vida como uma ópera composta por Deus e pelo diabo, projeta-se em todo o romance, mostrando que, na luta entre as virtudes e os vícios, o Bem sempre triunfa.

e) Ao tentar reproduzir no Engenho Novo a casa em que se havia criado na antiga rua de Mata-cavalos, ou ao escrever suas memórias, Dom Casmurro tenta reconstruir o passado, logrando invocar-lhe as imagens e não as sensações.

 

5. “Um lenço bastou para acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo”. Para fazer de Bentinho, o Dom Casmurro, o que foi suficiente?

a) A semelhança física e comportamental entre seu filho e seu amigo Escobar.

b) Uma carta de Capitu a Escobar.

c) Uma fotografia em que estavam juntos Capitu e Escobar.

d) A traição de Capitu.

e) Um diálogo entre Escobar e Capitu.

 

6. Por que Bentinho, protagonista do romance realista Dom Casmurro, de Machado de Assis, não conseguiu “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”?

a) Porque, na velhice, Bentinho já não era mais a mesma pessoa: deixara de ser um homem romântico para se tornar realista e pessimista.

b) Porque o protagonista não conseguiu reconstruir, no Engenho Novo, a casa da Rua de Matacavalos.

c) Porque a memória do senhor Bento Santiago não era capaz de recompor as imagens da adolescência.

d) Porque, no fim da vida, depois de ter realizado todos os seus objetivos, a adolescência tornou-se um período de idealizações ingênuas.

e) Porque, na casa do Engenho Novo, já idoso, Bentinho sentia-se ainda um adolescente, tal qual na Rua de Matacavalos.

 

7. Como se justifica o título do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis?

a) Dom Casmurro era uma homenagem que a família do protagonista fazia a um tio de Bentinho que se tornara bispo da Igreja Católica.

b) Em Dom Casmurro, o dom é uma ironia de um jovem poeta desapontado pelo protagonista e o casmurro se explica pelos hábitos reclusos e calados do velho Bentinho.

c) O título é uma referência à linhagem nobre da família do Bentinho.

d) Dom Casmurro é o tratamento que recebeu da magistratura depois que se formou em Direito.

e) Trata-se de um apelido que ganhou dos colegas, no seminário, para enaltecer a sua vocação religiosa.

 

8. Com essa história de traiu ou não traiu, de Capitu ser anjo ou demônio, o leitor de Dom Casmurro acaba se esquecendo do fundamental: as memórias são do velho narrador, não da mulher; e o autor é Machado de Assis, e não um escritor romântico dividido entre mistérios. Aceitas essas observações, o leitor de Dom Casmurro deverá:

a) identificar o ponto de vista de Capitu, considerando ainda o universo próprio da ficção naturalista.

b) aceitar os juízos do velho narrador, por meio de quem se representa a índole confessional de Machado de Assis.

c) rejeitar as acusações do jovem Bentinho, preferindo-lhes a relativização promovida pelo velho narrador.

d) reconhecer os limites do tipo de narrador adotado, subordinando-o ao peculiar universo de valores do autor.

e) relativizar o ponto de vista da narração, cuja ambiguidade se deve à personalidade oblíqua de Capitu.

 

As questões 9 e 10 se referem às obras Dom Casmurro, de Machado de Assis, e O Primo Basílio, de Eça de Queirós.

 

9. Comparando as protagonistas Luiza, de O Primo Basílio, e Capitu, de Dom Casmurro, pode-se dizer que ambas:

a) certamente traíram, com amantes, seus respectivos maridos.

b) são personagens que exemplificam a superioridade da mulher.

c) morreram logo após a descoberta dos respectivos adultérios.

d) exemplificam a vulnerabilidade da mulher na sociedade.

e) tiveram filhos de seus respectivos amantes.

 

10. A respeito do processo de narração nessas duas obras, é CORRETO afirmar que:

a) a narração só é feita em primeira pessoa ao final de Dom Casmurro.

b) os narradores são os protagonistas nas duas obras.

c) os narradores são femininos nesses dois romances.

d) a narração, em O Primo Basílio, é feita em terceira pessoa.

e) os narradores são os filhos dos protagonistas.

 

11. (UFU-MG) Considere a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, e as afirmativas que se seguem:

I. Dona Glória tentava impedir o casamento de Bentinho com Capitu, pois desejava que ele se unisse a Sancha.

II. Bento Santiago não teve problemas em homenagear o amigo Escobar, por ocasião de seu enterro, pois era seu melhor amigo.

III. A cena descrita no velório de Escobar (homens e mulheres chorando) é uma característica do Romantismo presente em todo o Dom Casmurro — obra que tem como tema os infelizes amores de Bentinho e Capitu.

IV. “Olhos de ressaca” — referência dada a Capitu — evidencia o seu poder de envolvimento e o grande fascínio que ela exerce sobre Bentinho, tal qual as vagas do mar.

V. Apesar da suspeita de adultério, o amor consegue superar a desconfiança fazendo com que Bentinho se reconcilie com a família de Capitu.

a) Se apenas IV é correta.

b) Se apenas I, II são corretas.

c) Se apenas III e V são corretas.

d) Se apenas V é correta.

e) Nenhuma delas é correta.

 

12. (PUCCAMP-SP) O trecho abaixo é parte do último capítulo de Dom Casmurro, de Machado de Assis:

 

    O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. I: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”. Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.

 

    Invocando aqui a memória e o testemunho do leitor de sua história, o narrador arremata a narrativa:

a) lembrando que os ciúmes de Bentinho por Capitu poderiam perfeitamente ser injustificáveis.

b) concluindo que a única explicação para a traição de Capitu é a força caprichosa de circunstâncias acidentais.

c) citando uma passagem da Bíblia, à luz da qual acaba admitindo a possibilidade da inocência de Capitu.

d) pretendendo que a personalidade de Capitu tenha se desenvolvido de modo a cumprir uma natural inclinação.

e) se mostra reticente quanto à convicção de que fora traído, sugerindo que continuará ponderando os fatos.

 

13. Qual dos períodos abaixo está em Dom Casmurro, de Machado de Assis?

a) “Ao vencedor, as batatas.”.

b) "Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada.".
c) "O sonho é uma festa do espírito.".

d) "Matamos o tempo; o tempo nos enterra.".

e) "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis...".

 

14. Um tipo social que recebe destaque tanto nas Memórias de um sargento de milícias quanto em Dom

Casmurro, merecendo, inclusive, em cada uma dessas obras, um capítulo cujo título o designa, é o:

a) traficante de escravos.

b) malandro.

c) capoeira.

d) agregado.

e) meirinho.

 

15. Em DOM CASMURRO, o narrador machadiano

a) registra, de forma comovente, as memórias de sua adolescência, na qual veio a conhecer e a perder o grande amor de sua vida.

b) rememora, de forma lírica, uma paixão antiga, que lhe valeu a ruptura definitiva com sua família conservadora.

c) rememora, com ressentimento, as origens, o desenvolvimento e o fim de uma paixão, destruída pelo ciúme.

d) recupera, em tom trágico, a história de seu grande amigo, traído pela mulher fútil e aventurosa.

e) registra, com ironia, a impiedade de seus injustificáveis ciúmes pela mulher cuja inocência tardiamente reconhece.

 

    ... Deixe ver os olhos, Capitu.

    Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...

    Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, – para dizer alguma cousa, – que era capaz de os pentear, se quisesse.

 

(Trecho do capítulo “Olhos de Ressaca”, da obra “Dom Casmurro”)

 

16. Qual das alternativas abaixo não corresponde ao que se afirma no excerto acima?

a) A expressão “Vá, de ressaca”, no terceiro parágrafo, significa a ausência de uma expressão melhor para definir os olhos de Capitu.

b) Na frase “Este outro suplício escapou ao divino Dante”, o “divino Dante” nos remete a “A Divina Comédia” de Dante Alighieri.

c) No início do terceiro parágrafo, a “Retórica dos namorados” é a interlocutora do eu narrativo.

d) Os “olhos de ressaca” se referem à força dos olhos da Capitu, de atrair Bentinho, de mantê-lo preso a eles.

e) O termo “assim”, no trecho “queria ver se podiam chamar assim”, refere-se a “oblíqua”.

 

17. Passe adequadamente para o discurso direto o trecho “Só me perguntava o que era, se nunca os vira...”.

a) “O que é? Nunca os vira?

b) – O que é? Nunca os viu?

c) “O que é? Nunca viu?”

d) O que era? Nunca os vira?

e) – O que era? Nunca os viu?

 

18. ANÁLISE MORFOLÓGICA: “Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu”. Aponte a alternativa incorreta.

a) “aqueles” é pronome demonstrativo.
b) “dá” é verbo da primeira conjugação flexionado na terceira pessoa do singular do presente do indicativo.

c) “me” é pronome pessoal do caso oblíquo.

d) “o” é pronome demonstrativo.

e) “que” é pronome relativo.

 

19. ANÁLISE SINTÁTICA: “Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu”. Assinale a alternativa incorreta.

a) “aqueles olhos de Capitu” é sujeito.

b) “de Capitu” é adjunto adnominal.

c) “foram” é verbo intransitivo.

d) “me” é objeto indireto.

e) “que” é predicativo do sujeito.

 

20. “Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me”. Neste trecho, temos uma sequência de metáforas ou uma circunstância metafórica. Que nome damos a esse recurso literário?

a) alegoria

b) catacrese

c) elipse

d) ironia

e) oxímoro

 

21. “imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios”. O termo “isto”, neste trecho, refere-se a

a) constantes

b) enfiados

c) imaginou

d) longos

e) mirá-los

 

22. ANÁLISE MORFOSSINTÁTICA: “Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim”. Identifique a alternativa incorreta.

a) “assim” é morfologicamente advérbio de modo e sintaticamente adjunto adverbial de modo.

b) “era” é morfologicamente verbo da segunda conjugação e sintaticamente verbo de ligação.

c) “o” é morfologicamente pronome demonstrativo e sintaticamente objeto direto.

d) “que” é morfologicamente pronome relativo e sintaticamente conjunção adjetiva.

e) “se” é morfologicamente pronome pessoal e sintaticamente objeto direto.

 

    – Mas, Sr. José Dias, e a minha saída daqui?

    – Isso é negócio meu. A viagem à Europa é o que é preciso, mas pode fazer-se daqui a um ou dous anos, em 1859 ou 1860.

    – Tão tarde!

    – Era melhor que fosse este mesmo ano, mas demos tempo ao tempo. Tenha paciência, vá estudando, não se perde nada em ir sabendo já daqui alguma cousa; e, demais, ainda não acabando padre a vida do seminário é útil, e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia...

    Neste ponto, – lembra-me como se fosse hoje, – os olhos de José Dias fulguraram tão intensamente que me encheram de espanto. As pálpebras caíram depois, e assim ficaram por alguns instantes, até que novamente se ergueram, e os olhos fixaram-se na parede do pátio, como que embebidos em alguma cousa, se não era em si mesmos, depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pátio todo. Podia compará-lo aqui à vaca de Homero; andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. Não lhe perguntei o que é que tinha, já por acanhamento, já porque dous lentes, um deles de teologia, vinham caminhando na nossa direção. Ao passarem por nós, o agregado, que os conhecia, cortejou-os com as deferências devidas, e pediu-lhes notícias minhas.

    – Por ora nada se pode afiançar, disse um deles, mas parece que dará conta da mão.

    (...)

    – Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.

    – Será este ano, replicou José Dias.

    – Daqui a três meses?

    – Ou seis.

    – Não; três meses.

    – Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor que outro qualquer. É combinar a ausência de vocação eclesiástica e a necessidade de mudar de ares. Você por que não tosse?

    – Por que não tusso?

    – Já, já, não, mas eu hei de avisar você para tossir, quando for preciso, aos poucos, uma tossezinha seca, e algum fastio; eu irei preparando a Excelentíssima... Oh! tudo isto é em benefício dela. Uma vez que o filho não pode servir a Igreja, como deve ser servida, o melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo a outra cousa. O mundo também é igreja para os bons...

    Pareceu-me outra vez a vaca de Homero, como se este "mundo também é igreja para os bons", fosse outro bezerro, irmão dos "santos óleos da teologia".

 

(Trechos do capítulo LXI – A vaca de Homero)

 

23. Assinale a alternativa incorreta.

a) “ungido” (quarto parágrafo) é o mesmo que untado, friccionado, molhado.

b) “fulguraram” (quinto parágrafo) equivale a brilharam, luziram, resplandeceram.

c) “lentes” (quinto parágrafo) é sinônimo de óculos ou binóculos.

d) “deferências” (quinto parágrafo) pode ser substituído adequadamente por considerações ou respeitos.

e) “fastio” (penúltimo parágrafo) é o mesmo que inapetência ou aversão a comida.

 

24. Pelo que se depreende do excerto, a frase “ungido com os santos óleos da teologia”, de José Dias, trata-se de

a) uma citação.

b) um clichê.

c) uma frase original.

d) um provérbio.

e) uma paráfrase.

 

25. Na frase “Podia compará-lo aqui à vaca de Homero” – quinto parágrafo – o termo “lo” é um pronome pessoal do caso oblíquo e se refere a

a) Bentinho

b) Homero

c) José Dias

d) olhos

e) pátio

 

26. Na frase “O mundo também é igreja para os bons” temos

a) comparação

b) eufemismo

c) metáfora

d) metonímia

e) prosopopeia

 

27. Neste excerto, temos um exemplo de narrador

a) observador

b) personagem

c) onipresente

d) personagem secundário

e) onisciente

 

28. ANÁLISE MORFOLÓGICA: “Não lhe perguntei o que é que tinha, já por acanhamento, já porque dous lentes, um deles de teologia, vinham caminhando na nossa direção”. Aponte a alternativa incorreta.

a) “deles” é contração da preposição “de” com o pronome pessoal do caso reto “eles”.

b) “é que” é locução denotativa de realce.

c) “já” é advérbio de tempo.

d) “lhe” é pronome pessoal do caso oblíquo da terceira pessoa do singular.

e) “por” é verbo da segunda conjugação, utilizado em sua forma nominal infinitiva.

 

29. ANÁLISE SINTÁTICA: “Não lhe perguntei o que é que tinha, já por acanhamento, já porque dous lentes, um deles de teologia, vinham caminhando na nossa direção”. Assinale a alternativa incorreta.

a) “lhe” é objeto indireto.

b) “o” é objetivo direto.

c) “que é que tinha” é oração subordinada adjetiva restritiva.

d) “que” – o primeiro “que” – é sujeito.

e) “um deles de teologia” é aposto.


    O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la. Até lá, não tendo esquecido de todo a minha história romana, lembrou-me que Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha Platão comigo; mas um tomo truncado de Plutarco, em que era narrada a vida do célebre romano, bastou-me a ocupar aquele pouco tempo, e para em tudo imitá-lo, estirei-me no canapé. Nem era só imitá-lo nisso; tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele, assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo, para intrepidamente morrer.

    Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. Há muita gente que se mata sem ele, e nobremente expira, mas estou que muito mais gente poria termo aos seus dias, se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. Entretanto, querendo fugir a qualquer suspeita de imitação, lembra-me bem que, para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco, nem ser dada a notícia nas gazetas com a da cor das calças que eu então vestia, assentei de pô-lo novamente no seu lugar, antes de beber o veneno.

    O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a mesa onde ficara a xícara. Já a casa estava em rumores; era tempo de acabar comigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara, e comecei a mexer o café, os olhos vagos, a memória em Desdêmona inocente; o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando; lá estava ele, com a mão nas costas da cadeira, a olhar ao longe...

    "Acabemos com isto", pensei.

    Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr a mim bradando:

    – Papai! papai!

    Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido, mas crê que foi belo e trágico. Efetivamente, a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos pés, como querendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia, puxando-me:

    – Papai! papai!


                                      (Capítulo CXXXVI / A Xícara de Café)


30. A respeito do capítulo 136, da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, assinale a alternativa incorreta.

a) Bentinho queria o apoio moral de Catão, para se matar.

b) Catão é o “célebre romano” a quem o narrador se refere no primeiro parágrafo.

c) A palavra “intrepidamente”, no primeiro parágrafo, pode ser substituída adequadamente por “corajosamente”.

d) Platão é o “filósofo” a quem o narrador nos remete no primeiro parágrafo.

e) Plutarco narrou a vida de Platão.


31. Aponte a alternativa incorreta a respeito do segundo parágrafo do excerto.

a) Bentinho não queria que tomassem o seu suicídio como uma simples imitação de Catão.

b) Com a expressão “cocaína moral”, o narrador nos diz que, se a cocaína é um recurso material de encorajamento, bons livros são recursos de encorajamento moral.

c) O narrador admite que muita gente, mesmo sem a ajuda de bons livros, vai ao suicídio corajosamente.

d) Segundo o narrador, menos pessoas se matariam se tivessem acesso intelectual a bons livros, porque encontrariam apoio moral neles.

e) O “remédio” a que o narrador se refere é o acesso intelectual a bons livros.


32. O termo “estou”, da frase “mas estou que muito mais gente poria termo aos seus dias”, do segundo parágrafo, representa o sentido de “estou convencido de”. A esse tipo de representação damos o nome de

a) antonomásia

b) metáfora

c) metonímia

d) perífrase.

e) síntese


33. O substantivo próprio “Desdêmona”, no terceiro parágrafo, é exemplo de

a) citação

b) intertextualidade

c) metalinguagem

d) paródia

e) sátira


34. ANÁLISE MORFOLÓGICA. Marque a alternativa incorreta. “Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido, mas crê que foi belo e trágico”.

a) O primeiro “que” é pronome relativo.

b) “lo” é pronome pessoal do caso oblíquo, da terceira pessoa do singular.

c) O segundo “que” é conjunção integrante.

d) “por” é verbo da segunda conjugação.

e) “trágico” é adjetivo.


    Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

    — Continue, disse eu acordando.

    — Já acabei, murmurou ele.

    — São muito bonitos.

    Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você”. "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo”. "Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça”.

    Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.


(Primeiro capítulo da obra DOM CASMURRO, de Machado de Assis)


35. Releia o excerto e aponte a alternativa incorreta.

a) O narrador se dirige ao leitor no início do último parágrafo.

b) Há seis casos de discurso direto.

c) Os acontecimentos se desenvolvem na cidade do Rio de Janeiro.

d) Para o narrador, casmurro significa “homem calado e metido consigo”.

e) O último parágrafo é referencial.


36. Indique a alternativa correta.

a) O narrador apresenta dois motivos pelos quais cochilou enquanto o rapaz lia seus poemas: “A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus”.

b) A última alternativa desta pergunta está correta.

c) O rapaz tentou por duas vezes ler seus textos ao narrador.

d) A primeira alternativa desta pergunta está incorreta.

e) Bentinho pôs título em suas memórias depois de encerrada a obra.


37. O período inicial do último parágrafo do excerto exemplifica a função da linguagem

a) conativa

b) expressiva

c) fática

d) metalinguística

e) referencial


38. O termo “vulgo”, empregado no último parágrafo do excerto, só não pode ser substituído adequadamente por

a) apelido

b) alcunha

c) antonomásia

d) codinome

e) homonímia


39. No trecho “Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou” – quinto parágrafo, o narrador declara que

a) apenas alguns vizinhos “não gostam dos meus hábitos reclusos e calados”.

b) todos os vizinhos ignoraram o apelido.

c) o codinome pegou porque os vizinhos o admiravam.

d) somente alguns vizinhos apoiaram a antonomásia.

e) todos os vizinhos “não gostam dos meus hábitos reclusos e calados”.


40. Releia o último parágrafo do excerto e responda: que significado o narrador atribui à palavra “autor”?

a) escritor

b) idealizador

c) narrador

d) poeta

e) prosador


41. ANÁLISE MORFOLÓGICA. “Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto” – quinto parágrafo. Aponte a alternativa incorreta.

a) “lhe” é pronome pessoal.

b) “mas” é conjunção adversativa.

c) “outra” é pronome demonstrativo.

d) “tirá” é verbo da primeira conjugação, flexionado no infinitivo pessoal.

e) “vez” é adjetivo.


42. ANÁLISE SINTÁTICA. “Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto” – quinto parágrafo. Marque a alternativa incorreta.

a) “mas não passou do gesto” é oração coordenada sindética adversativa.

b) “lhe” é objeto direto.

c) “outra vez” é adjunto adverbial.

d) “lhe fazer um gesto” é oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo.

e) “para tirá-los outra vez do bolso” é oração subordinada adverbial final reduzida de infinitivo.


43. A locução adverbial “outra vez”, do quinto parágrafo, é usada para

a) apontar a intenção de recomeçar

b) conotar ironia ao fato

c) denotar frequência da atitude

d) eliminar o ineditismo da cena

e) imprimir originalidade à ação


44. Analise gramaticalmente o trecho “encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro”, do primeiro parágrafo, e identifique a alternativa incorreta.

a) “aqui do bairro” é locução adverbial de lugar, porque são mais de uma palavra para dar o sentido de um advérbio de lugar.

b) “da Central” é complemento nominal, porque o substantivo “trem” é transitivo.

c) “encontrei” é verbo transitivo direto, porque não põe preposição entre ele e o complemento.

d) “no trem” é adjunto adverbial de lugar, porque indica o lugar do encontro.

e) “um rapaz” é objeto direto, porque completa o sentido de um verbo transitivo direto.


45. Passe o quarto parágrafo para o discurso indireto.

a) Eu disse ao rapaz que os seus versos eram muito bonitos.

b) Respondi ao rapaz que os seus poemas eram muito bonitos.

c) Eu dizia ao rapaz que os seus versos eram muito bonitos.

d) Respondi ao rapaz que os seus poemas foram muito bonitos.

e) Eu disse ao rapaz que os seus versos são muito bonitos.


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