Literatura

Matéria da P. O. do dia 30/03: 
O dia em que explodiu Mabata-Bata + Módulo 8 + Funções da linguagem.
TRABALHO DE LITERATURA:
 Produção de qualquer gênero artístico inspirado pelo conto do Mia Couto.
                                       O trabalho deve ser apresentado até o fim de março.

Vozes Anoitecidas
(1986)

Mia Couto
(1955)

Mia Couto é biólogo e escritor moçambicano, nascido em Beira.
Vozes Anoitecidas é um livro de contos.

O DIA EM QUE EXPLODIU MABATA-BATA – VOZES ANOITECIDAS – Mia Couto

            De repente, o boi explodiu. Rebentou sem um múúú. No capim em volta choveram pedaços e fatias, grão e folhas de boi. A carne eram já borboletas vermelhas. Os ossos eram moedas espalhadas. Os chifres ficaram num qualquer ramo, balouçando a imitar a vida, no invisível do vento.
            O espanto não cabia em Azarias, o pequeno pastor. Ainda há um instante ele admirava o grande boi malhado, chamado de Mabata-bata. O bicho pastava mais vagaroso que a preguiça. Era o maior da manada, régulo da chifraria, e estava destinado como prenda de lobolo do tio Raul, dono da criação. Azarias trabalhava para ele desde que era órfão. Despegava antes da luz para que os bois comessem o cacimbo das primeiras horas.
            Olhou a desgraça: o boi poeirado, eco de silêncio, sombra de nada.
            “Deve ser foi um relâmpago”, pensou.
            Mas relâmpago não podia. O céu estava liso, azul sem mancha. De onde saíra o raio? Ou foi a terra que relampejou?
            Interrogou o horizonte, por cima das árvores. Talvez o ndlati, a ave do relâmpago, ainda rodasse os céus. Apontou os olhos na montanha em frente. A morada do ndlati era ali, onde se juntos os todos rios para nascerem para nascerem da mesma vontade da água. O ndlati vive nas suas quatro cores escondidas e só se destapa quando as nuvens rugem na rouquidão do céu. É então que o ndlati sobe aos céus, enlouquecido. Nas alturas se veste de chamas, e lança seu vôo incendiado sobre os seres da terra. Às vezes atira-se no chão, buracando-o. Fica na cova e ali deita a sua urina.
            Uma vez foi preciso chamar as ciências do velho feiticeiro para escovar aquele ninho e retirar os ácidos depósitos. Talvez o Mabata-bata pisara uma réstia maligna do ndlati. Mas quem podia acreditar? O tio, não. Havia de querer ver o boi falecido, ao menos ser apresentado uma prova do desastre. Já conhecia bois relampejados: ficavam corpos queimados, cinzas arrumadas a lembrar o corpo. O fogo mastiga, não engole de uma só vez, conforme sucedeu-se.
            Reparou em volta, os outros bois assustados, espalharam-se pelo mato. O medo escorregou dos olhos do pequeno pastor.
            – Não apareças sem um boi, Azarias. Só digo: é melhor nem apareceres.
            A ameaça do tio soprava-lhe os ouvidos. Aquela angústia comia-lhe o ar todo. Que podia fazer? Os pensamentos corriam-lhe como sombras mas não encontravam saídas. Havia uma só solução: era fugir, tentar os caminhos onde não sabia mais nada. Fugir é morrer de um lugar e ele, com os seus calções rotos, um saco velho a tiracolo, que saudade deixava? Maus tratos, atrás dos bois. Os filhos dos outros tinham direito da escola. Ele não, não era filho. O serviço arrancava-o cedo da cama e devolvia-o ao sono quando dentro dele já não havia resto de infância. Brincar era só com os animais: nadar o rio a boleia do rabo do Mabata-bata, apostar na briga dos mais fortes. Em casa, o tio advinha-lhe o futuro:
            – Este, da maneira que vive misturado com a criação há-de casar com uma vaca.
            E todos se riam, sem quererem saber da sua alma pequenina, dos seus sonhos maltratados. Por isso, olhou sem pena para o campo que iria deixar. Calculou o dentro do seu saco: uma fisga, frutos de djambalau, um canivete enferrujado. Tão pouco não pode deixar saudade. Partiu na direcção do rio. Sentia que não fugia: estava apenas a começar o seu caminho. Quando chegou ao rio, atravessou a fronteira da água. Na outra margem parou à espera nem sabia de quê.
            Ao fim da tarde a avó Carolina esperava Raul à porta da casa. Quando chegou ela disparou a aflição:
            – Essas horas e o Azarias ainda não chegou com os bois.
            – O quê? Esse malandro vai apanhar muito bem, quando chegar.
            – Não é que aconteceu uma coisa, Raul? Tenho medo, esses bandidos...
            – Aconteceu brincadeira dele, mais nada.
            Sentaram na esteira e jantaram. Falaram das coisas do lobolo, preparação do casamento. De repente, alguém bateu à porta. Raul levantou-se interrogando os olhos da avó Carolina. Abriu a porta: eram os soldados, três.
            – Boa noite, precisam alguma coisa?
            – Boa noite, viemos comunicar o acontecimento: rebentou uma mina esta tarde, foi um boi que pisou. Agora, esse boi pertencia daqui.
            Outro soldado acrescentou:
            – Queremos saber onde está o pastor dele.
            – O pastor estamos à espera – respondeu Raul. E vociferou: – Malditos bandos!
            – Quando chegar queremos falar com ele, saber como foi sucedido. É bom ninguém sair na parte da montanha. Os bandidos andaram espalhar minas nesse lado.
            Despediram. Raul ficou, rodando à volta das suas perguntas. Esses sacana do Azarias onde foi? E os outros bois andariam espalhados por aí?
            – Avó: eu não posso ficar assim. Tenho que ir ver onde está esse malandro. Deve ser talvez deixou a manada fugentar-se. É preciso juntar os bois enquanto é cedo.
            – Não podes, Raul. Olha os soldados o que disseram. É perigoso.
            Mas ele desouviu e meteu-se pela noite. Mato tem subúrbio? Tem: é onde o Azarias conduzia os animais. Raul, rasgando-se nas micaias, aceitou a ciência do miúdo. Ninguém competia com ele na sabedoria da terra. Calculou que o pequeno pastor escolhera refugiar-se no vale.
            Chegou ao rio e subiu às grandes pedras. A voz superior, ordenou:
            – Azarias, volta. Azarias!
            Só o rio respondia, desenterrando a sua voz corredeira. Nada em toda à volta. Mas ele adivinhava a presença oculta do sobrinho.
            – Apareças lá, não tenhas medo. Não vou-te bater, juro.
            Jurava mentiras. Não ia bater: ia matar-lhe de porrada, quando acabasse de juntar os bois. No enquanto escolheu sentar, estátua de escuro. Os olhos habituados à penumbra desembarcaram na outra margem. De repente, escutou passos no mato. Ficou alerta.
            – Azarias?
            Não era. Chegou-lhe a voz de Carolina.
            – Sou eu, Raul.
            Maldita velha, que vinha ali fazer? Trapalhar só. Ainda pisava na mina, rebentava-se e, pior, estoirava com ela também.
            – Volta em casa, avó!
            – O Azarias vai negar de ouvir quando chamares. A mim, há-de ouvir.
            E aplicou sua confiança, chamando o pastor. Pro trás das sombras, uma silhueta deu aparecimento.
            – És tu, Azarias. Volta comigo, vamos pra casa.
            – Não quero, vou fugir.
            O Raul foi descendo, gatinhoso, pronto pra saltar e agarrar as goelas do sobrinho.
            – Vais fugir para onde, meu filho?
            – Não tenho onde, avó.
            – Esse gajo vai voltar nem que eu lhe chamboqueie até partir-se dos bocados – precipitou-se a voz rasteira de Raul.
            – Cala-te, Raul. Na tua vida nem sabes da miséria – E voltando-se para o pastor: – Anda meu filho, só vens comigo. Não tens culpa do boi que morreu. Anda ajudar o teu tio juntar os animais.
            – Não é preciso. Os bois estão aqui, perto comigo.
            Raul ergueu-se, desconfiado. O coração batucava-lhe o peito.
            – Como é? Os bois estão aí?
            – Sim, estão.
            Enroscou-se o silêncio. O tio não estava certo da verdade de Azarias.
            – Sobrinho: fizeste mesmo? Juntaste os bois?
            A avó sorria pensando no fim das brigas daqueles os dois. Prometeu um prêmio e pediu ao miúdo que escolhesse.
            – O teu tio está muito satisfeito. Escolhe. Há-de respeitar o teu pedido.
            Raul achou melhor concordar com tudo, naquele momento. Depois, emendaria as ilusões do rapaz e voltariam as obrigações do serviço das pastagens.
            – Fala lá o seu pedido.
            – Tio: próximo ano posso ir na escola?
            Já adivinhava. Nem pensar. Autorizar a escola era ficar sem guia para os bois. Mas o momento pedia fingimento e ele falou de costas para o pensamento:
            – Vais, vais.
            – É verdade, tio?
            – Quantas bocas tenho, afinal?
            – Posso continuar ajudar nos bois. A escola só frequentamos da parte de tarde.
            – Está certo. Mas tudo isso falamos depois. Anda lá daqui.
            O pequeno pastor saiu da sombra e correu o areal onde o rio dava passagem. De súbito, deflagrou um clarão, parecia o meio-dia da noite. O pequeno pastor engoliu aquele todo vermelho, era o grito do fogo estourando. Nas migalhas da noite viu descer o ndlati, a ave do relâmpago. Quis gritar:
            – Vens pousar quem, ndlati?
            Mas nada não falou. Não era o rio que afundava suas palavras: era um fruto vazando de ouvidos, dores e cores. Em volta tudo fechava, mesmo o rio suicidava sua água, o mundo embrulhava o chão nos fumos brancos.
            – Vens pousar a avó, coitada, tão boa? Ou preferes no tio, afinal das contas, arrependido e prometente como o pai verdadeiro que morreu-me?
            E antes que a ave do fogo se decidisse Azarias correu e abraçou-a na viagem de sua chama.

Tema de REDAÇÃO 1 – Descrição de Personagem.

ROTEIRO:
1º parágrafo: Descrição física.
2º: Descrição dinâmica.
3º: Descrição psicológica (sentimental).
4º: Descrição alheia (como é vista ou visto por outras pessoas).
5º: Descrição ideológica.

Coloque no título o nome ou apelido do seu personagem.
Use no mínimo 20 e no máximo 30 linhas.

Módulo 1

Eu lírico: o eu do poema; a primeira pessoa do texto poético.

Ficção: a invenção de um fragmento da realidade; o escritor quer mostrar a existência de alguns personagens e suas relações com a mesma lógica da realidade.

Modalidades e gêneros:
A modalidade determina o interesse principal do texto:
DESCRIÇÃO, o objeto;
NARRAÇÃO, as relações dos objetos;
DISSERTAÇÃO, as concepções dos autores.
O gênero determina a estrutura do texto: conto, romance, novela, poema, teatro.

Gil Vicente viveu entre 1450 e 1550.
É o fundador do teatro português.
Literariamente conservador e religiosamente moralista.
Seu objetivo era a crítica social.
Escreveu autos e farsas.
Autos: caráter religioso e moralista.
Farsas: caráter profano e irônico.
Trilogia das barcas (uma trilogia de sátiras):
Auto da Barca do Purgatório;
Auto da Barca da Glória;
Auto da Barca do Inferno.
Período em que Gil Vicente escreveu: Humanismo – 1434-1527.

AUTO DA BARCA DO INFERNO – Paráfrase de trecho do episódio do Fidalgo.

Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:
FIDALGO – Esta barca, para onde vai assim tão enfeitada?
DIABO – Vai para a ilha perdida, e há-de logo partir.
FIDALGO – Para lá vai a senhora?
DIABO – Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO – Parece-me isto cortiço...
DIABO – Porque a está vendo de fora.
FIDALGO – Mas diga-me. Para onde vão?
DIABO – Pera o inferno, senhor.
FIDALGO – Uau! Já estou sentindo o calor!
DIABO – O quê?... Zombando mesmo depois da morte?
FIDALGO – E há passageiros para o inferno?
DIABO – Estou diante de um ilustre passageiro.
FIDALGO – De onde tirou essa ideia?
DIABO – Ora, como espera se salvar?
FIDALGO – Deixei na Terra quem está rezando por mim.
DIABO – Quem reze sempre por ti? Ow! E tu viveste a teu prazer, como bem quis, acreditando que aqui se daria bem porque deixaria na Terra quem rezasse por ti? Que fofo! Ora, embarque logo, que seu destino já foi traçado! Mandai subir a cadeira, que assim passou vosso pai.
FIDALGO – Quê? Quê? Quê? Assim lhe vai?! Assim lhe vai?!
DIABO – Vai ou vem! Embarque logo, que não tenho fogo a perder! Não foi esse o destino que construiu em vida? Agora se dê por satisfeito. Pois que já a morte passastes, hás de passar o rio.
FIDALGO – Não há aqui outro navio?
DIABO – Não, para o senhor. Esta é sua merecida embarcação.
FIDALGO – A esta outra barca me vou. Com sua incendiária licença? Hou da barca! Para onde is? Ah, barqueiros! Não me ouvis? Respondei-me! Houlá! Houlá!...
ANJO – Que quereis?
FIDALGO – Que me diga, pois parti tão sem aviso, se a barca do Paraíso é esta em que navegais.
ANJO – Pois, sim. Esta é a barca do paraíso. Posso ajudá-lo?
FIDALGO – Que me deixes embarcar. Sou fidalgo de família real, é bem que me recolha.
ANJO – Não se embarcam tiranos neste batel divinal.
FIDALGO – Não sei por que haveis por mal que entre a minha senhoria?
ANJO – Suas riquezas são muitas e não cabem nesta barca.
FIDALGO – Para um senhor de tal marca não há aqui mais cortesia? Venha a prancha e embarco, sem muita conversa! Levai-me desta ribeira!
ANJO – Não vindes vós de maneira para entrar neste navio. Esse outro vai mais vazio: a cadeira entrará e o rabo caberá e todo vosso senhorio. Ireis lá mais espaçoso, vós e vossa senhoria, junto da tirania que não ouviu o pobre povo queixoso. E porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos quanto mais títulos tivesse.

Linguagem denotativa ou conotativa?

Linguagem DENOTATIVA

Literal
Objetiva
Factual
Impessoal
Explícita
Analítica
Inflexível
Científica

Linguagem CONOTATIVA

Figurada
Subjetiva
Criativa
Pessoal
Implícita
Sintética
Flexível
Artística

 

Funções da Linguagem

1. EMOTIVA (ou EXPRESSIVA)
O texto está em função da primeira pessoa. Um depoimento ou uma confissão, por exemplo.

2. APELATIVA (ou CONATIVA)
O interesse do texto é a segunda pessoa. Ele quer que alguém faça ou não faça algo. Normalmente o verbo está empregado no modo imperativo. Por exemplo: um comercial ou uma campanha publicitária.

3. REFERENCIAL
Nesta função, interessa apenas a terceira pessoa. Não interessa quem escreve ou quem lê. Numa notícia, por exemplo, apenas o fato interessa.

4. METALINGUÍSTICA
A metalinguagem acontece quando o texto se refere ao próprio texto. Quando num livro, por exemplo, o autor faz comentários a respeito do próprio livro.

5. POÉTICA
A função poética prioriza a linguagem. O poeta escolhe palavras, inventa sintaxes, emprega figuras de linguagem a fim de sofisticar a comunicação e provocar um sentimento novo.

6. FÁTICA
Liga ou mantém ligado o canal de comunicação. Caracteriza-se quando o locutor testa o microfone antes de iniciar seu discurso, por exemplo.