sexológica

sexo anal

        O prazer de quem penetra com seu pênis um ânus é indiscutível. O prazer masculino de posse e uso existe desde os primeiros tempos da vida inteligente. A dificuldade de conquistar o corpo de outra pessoa só valoriza a conquista. E se é menos fácil conquistar uma pessoa destacadamente bonita e menos ainda uma pessoa a quem idolatramos, penetrar o ânus dessa pessoa é a suprema glória masculina.
         Por que a glória é maior do que na conquista de uma vagina? Porque na relação peniano-anal – na maioria dos casos – não existe o prazer de ser penetrada. A dona do ânus permite a penetração e às vezes com muito sofrimento. Na relação peniano-vaginal existe o interesse das duas partes. A sensação de que pode estar sendo usado sexualmente pela mulher não agrada o homem. Durante a maior parte da história, os homens não permitiram a manifestação do prazer feminino e um dos motivos dessa proibição era o desejo de se sentir o dominador usando o indivíduo dominado.
         No sexo anal não há o prazer do exercício da reprodução nem o da recomposição fisiológica, mas há o prazer de penetração do corpo humano em alta temperatura. O ânus não perde em quantidade de calor para a vagina porque também se encontra entre as nádegas – a região com maior quantidade de tecido adiposo com a finalidade de reter calor. E a quantidade-qualidade da ejaculação depende fundamentalmente de produção e retenção de calor.
         Muitas pessoas afirmam que a sensibilidade do ânus é propícia também para o coito. Que é possível sentir prazer passivamente com sexo anal. E por que duvidaríamos de alguém que pratica sexo anal passivamente e diz sentir prazer? A questão não é essa. Se é possível ou não sentir prazer. A questão é: por que esse alguém sente prazer?
         Considerando que todo prazer é antes uma necessidade – comemos pizza porque temos fome e consequentemente sentimos o prazer de matar a fome com pizza – que necessidade é atendida na passividade do sexo anal?
         Há inúmeras possibilidades. Vamos pensar numa delas.
         Existe o prazer com dor. Um atleta, por exemplo, às vezes sofre para executar uma bateria de exercícios, mas executa, mesmo com dores, consciente de que está progredindo em seu treinamento. E sente o prazer de se ver evoluindo. Um rapaz, às vezes sofre com a austeridade e as punições do pai, mas sofre calado, porque sabe que é para o seu bem. Que, na verdade, seu pai não está sendo mau, está sendo protetor e educador.
         Historicamente, todos nós temos o registro dessa sensação de que alguém nos pressiona ou castiga para o nosso bem. A sensação de dor aliada ao sentimento de que alguém está preocupado conosco é positiva e forte. Afinal, faz bem pouco tempo que as crianças deixaram de apanhar para aprender. Inclusive na escola.
         A ausência de alguém que nos oriente, que seja rígido conosco pode gerar o prazer passivo do sexo anal. Sentir-se penetrada por alguém que a ame é uma maneira de reeditar o prazer de se sentir protegida. Um pai forte e severo dá medo, mas também dá segurança.
 
         Consequências do sexo anal
 
         Anatomistas e fisiologistas dizem que há nervos pudendos – nervos comuns aos órgãos genitais – na região externa do ânus. Estão anunciando, noutras palavras, que a saída intestinal também faz parte do aparelho sexual humano, ou que tem condições físicas para integrá-lo.
         Esses anatomistas, no entanto, não podem anunciar a expulsão de líquidos orgásticos pelo ânus. Os homens não podem fazê-lo, porque seus líquidos orgásticos estão no esperma e saem pelo pênis, através da uretra. As mulheres também não podem expelir seus líquidos orgásticos pelo ânus, porque esses saem pelas glândulas exócrinas do saco vaginal.
         E não poderia ser diferente, pois a região interna do ânus não possui condições fisiológicas para reter sangue suficiente para uma temperatura orgástica. A região anal pode conseguir um aquecimento bastante até para uma lubrificação dos anéis externos, acionando, porém, mecanismos de defesa contra a dor e a deformação. Na lubrificação vaginal são acionados mecanismos contráteis de absorção, para que a genitália possa sugar o pênis e o útero seja capaz de sorver os espermatozoides.
         Aquela frustração própria da masturbação, causada pela ausência de respostas circunstanciais e orgânicas ao processo ejaculatório, é então mais significativa no sexo anal. Esse tipo de relação sexual conta com mais caracteres da realidade que a masturbação, considerando obviamente a penetração. Sabendo-se que a quantidade de fatores reais é determinante na desenvoltura da hipófise, a glândula mestra das liberações hormonais, o corpo se empenha muito mais pelos resultados no sexo anal que na masturbação, mesmo acompanhada.
         Mas vamos ver, em partes, algumas implicações do coito anal: para o dono do pênis, com e sem camisinha; e para a dona do ânus, com e sem preservativo. A relação sexual anal com camisinha, para o dono do pênis, tem quase o mesmo valor que uma transa peniano-vaginal com preservativo. As diferenças estão na pulsação e na temperatura. Enquanto na relação peniano-vaginal o pênis pulsa em distratilidade, a vagina age em contratilidade, isto é, o pênis entra e a vagina puxa. Na relação peniano-anal, o pênis pulsa em distratilidade contra o ânus, que também age em distratilidade.
         A colisão das pulsações verificadas na relação sexual anal pode ser mais prazerosa que a sincronia da pulsação peniano-vaginal, mais especificamente aos homens que se sentem mais masculinos no exercício da violência e às mulheres as quais se veem mais femininas no exercício da resistência à violência própria dos homens.
         Quanto à temperatura, o calor produzido pela fricção peniano-anal é bem próximo do índice verificado na cópula, já que as nádegas formam a região de maior concentração sanguínea durante a relação sexual e estão próximas tanto da vagina quanto do ânus.
         Para a dona do ânus, a relação sexual anal com camisinha traz consequências estruturais e, às vezes, orgânicas. Pode causar disfunções nos esfíncteres anais. Os anéis musculares que compõem o reto ficam sujeitos a perderem um tanto de sua habilidade involuntária de se contraírem e se relaxarem para regular o trânsito de materiais. Essa habilidade pode ser prejudicada pela voluntariedade, pelo desejo e pelo esforço da dona do ânus para se ajustar à distratilidade do pênis.
         É comum a emissão dos líquidos orgásticos vaginais, mesmo numa relação peniano-anal. A fricção consegue elevar a temperatura da região pudenda a ponto de promover a ejaculação feminina. Nesses casos, o prejuízo da mulher é também orgânico, porque se desgasta na produção e na emissão dos líquidos orgásticos e não se recompõe fisiologicamente, uma vez que os espermatozoides não são despejados no fundo da vagina.
         Sem camisinha, a relação sexual anal, para o dono do pênis, pode ser a mais prejudicial. Primeiro, porque coloca sua corrente sanguínea em contato com os dejetos ou excrementos anais carregados de micro-organismos indesejáveis. Por causa desse contato, o sexo anal é o modo de relacionamento sexual em que o dono do pênis mais se expõe às doenças sexualmente transmissíveis. E, segundo, porque, em vez de absorver os gases cromossômicos, o pênis traz para o sangue os gases emitidos pela putrefação dos resíduos intestinais. O que pode ser pior?
         Por fim, para a dona do ânus, a relação sexual anal sem camisinha também é das mais arriscadas. A fricção do pênis com os músculos anulares da entrada do reto provoca ferimentos, os quais podem ser usados como portas de entrada a micro-organismos nocivos como o vírus da AIDS.
         Depois do coito interrompido, o coito anal é o responsável pela ejaculação desprotegida mais desgastante. Incluí o adjetivo desprotegida porque, para o dono do pênis, o gozo anal sem camisinha pode ser mais decepcionante organicamente – gasta muito por pouco – que o coito interrompido. Com o preservativo, a relação sexual anal seria menos envolvente que o onanismo. Envolveria menos hormônios, gastaria menos por pouco. Naturalmente porque a camisinha torna o coito anal mais distante de uma transa convencional.
         É bom ressaltar que o termo convencional usado para identificar uma relação sexual ininterrupta e sem qualquer proteção não quer dizer que as outras relações são anormais ou condenáveis. Está afirmando apenas que a cópula peniano-vaginal ininterrupta e desprotegida, historicamente, é a mais praticada e está dentro das normas de reprodução da natureza. As outras são alteradas em acordo com os interesses individuais e culturais.
         Por outro lado, estou, sim, afirmando que os orgasmos conseguidos fora das normas de recomposição fisiológica e de reprodução da natureza não podem trazer consequências orgânicas agradáveis. O melhor que podem causar é o prazer próprio do acontecimento, da reversão da distratilidade para a preponderância da gravidade nuclear ou da contratilidade para predominância da gravidade geral; o prazer da ciclicidade caracterizada pela ejaculação.
         As ejaculações isoladas dos líquidos orgásticos não podem oferecer mais que o prazer da própria ocorrência, simplesmente porque a recomposição e a reprodução não estão preparadas para acontecer isoladamente. A reprodução pode ocorrer, sim, isoladamente, com a interferência médica. Temos o exemplo da inseminação artificial. Porém, naturalmente, se a pessoa quer apenas o prazer do orgasmo, não misture os líquidos orgásticos dentro de uma vagina; se quer o prazer e os gases cromossômicos, não misture os líquidos orgásticos diante de um óvulo maduro; se quer o prazer, os gases e um filho, tenha uma relação sexual peniano-vaginal sem proteção.
         Observe que, se queremos um filho, temos o filho (provavelmente), a recomposição fisiológica e o orgasmo; se queremos a recomposição, temos os gases fisiológicos e o orgasmo; entretanto, se queremos o prazer, temos apenas o prazer. Não é justo?