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QUESTÕES


VIDAS SECAS

 

Graciliano Ramos

 

1. Fabiano (Vidas Secas, Graciliano Ramos) e Jerônimo (O Cortiço, Aluísio Azevedo) são exemplos de homens fortes e resistentes. Explique como o determinismo cultural alterou o destino de um e manteve o destino de outro.

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2. As obras “Capitães da Areia”, “Sentimento do Mundo” e “Vidas Secas” foram escritas por autores da segunda geração modernista. Nelas aparecem referências metafísicas. Relacione as obras às suas respectivas referências.

I. “Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem (...), pediu informações”.

II. “No reino do céu seriam iguais. Mas já tinham sido desiguais na terra, a balança pendia sempre para um lado”.

III. “Quando me levantar, o céu / estará morto e saqueado”.

a) Capitães da Areia, Vidas Secas e Sentimento do Mundo.

b) Vidas Secas, Capitães da Areia e Sentimento do Mundo.

c) Sentimento do Mundo, Capitães da Areia e Vidas Secas.

d) Capitães da Areia, Sentimento do Mundo e Vidas Secas.

e) Vidas Secas, Sentimento do Mundo e Capitães da Areia.

 

     Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.

     Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.

     Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

     - Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.

     Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.

     A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

     - Anda, excomungado.

     O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário - e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.

     Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.

     Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados no estomago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinha Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caiam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.

     E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.

 

(Trecho do primeiro capítulo de “Vidas Secas”)

 

VOCABULÁRIO (Houaiss)

Cangote – nuca.

Gutural – que provém da garganta.

Légua – no Brasil, uma légua vale aproximadamente 6.600 metros.

 

3. A expressão “escanchado no quarto” (segundo parágrafo) pode ser entendida como

a) acavalado lateralmente na cintura

b) deitado no quarto

c) junto e ao lado

d) um passo atrás

e) dormindo no colo

 

4. No sintagma “baú de folha”, no segundo parágrafo, “folha” é um nome emprestado a uma placa de alumínio. Que nome se dá a essa figura de linguagem que empresta um nome por falta de um substantivo apropriado?

a) hipérbato

b) anástrofe

c) sínquise

d) hipérbole

e) catacrese

 

5. O fato de a expressão “baú de folha” (segundo parágrafo) não especificar o tipo de folha caracteriza a figura de linguagem com qual se entende um todo pela parte. Que figura de linguagem é essa?

a) apóstrofe

b) antítese

c) metonímia

d) eufemismo

e) anáfora

 

6. Os movimentos dos juazeiros, no terceiro parágrafo, caracterizam a figura de linguagem denominada

a) oximoro

b) paradoxo

c) hipálage

d) aliteração

e) personificação

 

7. No quarto parágrafo, a expressão “condenado do diabo” comunica um conceito em lugar do nome. Que nome se dá a essa figura de linguagem a qual usa uma locução ou frase para transmitir um conceito em lugar do nome?

a) anacoluto

b) perífrase

c) metáfora

d) comparação

e) elipse

 

8. A oração “Como isto não acontecesse”, do quinto parágrafo, estrutura-se como

a) comparação

b) causa

c) consequência

d) concessão

e) finalidade

 

9. No sexto parágrafo, a expressão “voo negro dos urubus” está uma figura de linguagem a qual desloca a concordância do adjetivo para outro substantivo, alcançando um efeito mais amplo. Que nome se dá a essa figura de linguagem?

a) hipálage

b) hipérbato

c) hipérbole

d) anástrofe

e) anáfora

 

10. O verbo “responsabilizar”, no oitavo parágrafo, é

a) intransitivo

b) bitransitivo

c) transitivo direto

d) transitivo indireto

e) de ligação

 

11. A oração “que estavam perto”, do décimo parágrafo, deve ser classificada como

a) oração subordinada substantiva subjetiva

b) oração subordinada adjetiva restritiva

c) oração subordinada substantiva objetiva direta

d) oração subordinada adjetiva explicativa

e) oração subordinada substantiva objetiva indireta

 

12. Considerando que o discurso indireto livre é aquele em que se confundem as falas do narrador e as falas do personagem, qual dos trechos mais se aproxima do discurso indireto livre?

a) “A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala” (primeiro parágrafo).

b) “- Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai” (quarto parágrafo).

c) “Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse” (quinto parágrafo).

d) “Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés” (nono parágrafo).

e) “Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato” (décimo parágrafo).

 

     Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.

     Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado.

      - Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

     Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

     Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:

      - Você é um bicho, Fabiano.

     Isso para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

     Chegara naquela situação medonha – e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.

     - Um bicho, Fabiano.

 

13. Com relação ao texto, qual é o recurso literário que não é utilizado pelo narrador?

a) Uso de imagens fortes (rato, sujeira) para marcar o embrutecimento do personagem.

b) Retrato de Fabiano mediante o contraponto entre os gestos corporais e as reflexões.

c) A adoção de um vocabulário restrito e simples, nivelado ao do sertanejo.

d) Emprego de repetições para traduzir o vaivém do pensamento do personagem.

e) A atenuação do distanciamento do ponto de vista em 3ª pessoa, através do discurso indireto livre.

 

14. Levando-se em consideração os diferentes aspectos do texto, pode-se afirmar que ele focaliza:

a) o íntimo conhecimento do sertanejo quanto às tensões sociais do Nordeste rural.

b) a base econômico-social do drama do trabalhador sertanejo.

c) a perda da autoridade paterna.

d) a capacidade do homem de se manter ileso a todo tipo de adversidade.

e) a complexidade psicológica do homem submetido à seca.

 

15. Todas as alternativas demonstram a preocupação em denunciar a desumanização ou a animalização da personagem, exceto:

a) ...ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros.

b) Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes.

c) Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

d) Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos.

e) ...descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

 

16. Todos os temas, presentes na obra Vidas Secas de Graciliano Ramos, aparecem no trecho citado, exceto:

a) o nomadismo do sertanejo;

b) a miséria dos retirantes;

c) a degradação do homem;

d) o coronelismo impiedoso;

e) a comparação do homem com animais.

 

17. (Cesgranrio) Assinale a opção correta com relação à compreensão dos parágrafos indicados nos parênteses, referentes ao texto.

a) Narração em linguagem concisa, próxima da técnica cinematográfica. (2º parágrafo)

b) Flagrante de um diálogo de Fabiano. (3º parágrafo)

c) Indicação da condição de imigrante europeu de Fabiano. (4º parágrafo)

d) Tentativa de Fabiano de se comunicar de forma correta. (5º parágrafo)

e) Expressão da perplexidade do narrador face à resistência de Fabiano. (7º parágrafo)

 

    O menino mais velho agarrou-a. Estava segura. Tentaram explicar-lhe que tinham tido susto enorme por causa dela, mas Baleia não ligou importância à explicação. Achava é que perdiam tempo num lugar esquisito, cheio de odores desconhecidos. Quis latir, expressar oposição a tudo aquilo, mas percebeu que não convenceria ninguém e encolheu-se, baixou a cauda, resignou-se ao capricho dos seus donos.

 

18. O trecho transcrito acima é um exemplo de que tipo de narrador?

a) personagem

b) personagem protagonista

c) personagem secundário

d) observador

e) onisciente

 

    Fabiano ouviu o relatório desconexo do bêbado, caiu numa indecisão dolorosa. Ele também dizia palavras sem sentido, conversa à toa. Mas irou-se com a comparação, deu marradas na parede. Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia por que ele não sabe falar direito?

 

19. Assinale a alternativa correta sobre o discurso do texto acima, de Graciliano Ramos.

a) Temos o discurso direto no primeiro período, considerando que o personagem fala diretamente ao leitor.

b) No segundo período, há a presença do discurso indireto livre, já que o narrador fala em lugar do personagem.

c) Encontra-se o discurso indireto livre no trecho interrogativo que encerra o fragmento, pois revela uma indignação do personagem.

d) No quarto período do fragmento, a afirmação “sim senhor” caracteriza o discurso direto, sabendo-se que se trata de uma afirmação do personagem, não do narrador.

 

    Você é um bicho, Fabiano.

    Isso para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

 

20. No trecho transcrito acima – Vidas Secas, Graciliano Ramos – temos um exemplo característico de discurso indireto livre no segmento:

a) “– Você é um bicho...”

b) “Você é um bicho, Fabiano.”

c) “Isso para ele era motivo de orgulho.”

d) “Sim senhor, um bicho...”

e) “...capaz de vencer dificuldades.”

 

    “Não sentia a espingarda, o saco, as pedras miúdas que lhe entravam nas alpercatas, o cheiro de carniças que empestavam o caminho. As palavras de sinha Vitória encantavam-no. Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era. Repetia docilmente as palavras de sinha Vitória, as palavras que sinha Vitória murmurava porque tinha confiança nele. E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se, temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos.”

 

21. Sobre o trecho transcrito acima, assinale a alternativa correta.

a) Nesse trecho, Graciliano Ramos encerra a narrativa Vidas Secas delineando as perspectivas tanto de Fabiano e sinha Vitória quanto das grandes cidades.

b) Esse trecho encontra-se no início da narrativa, quando Fabiano e sinha Vitória estão fugindo da seca, com os dois meninos, a cachorra baleia e um papagaio.

c) Nesse trecho revela-se a expectativa de Fabiano e sinha Vitória, que estão caminhando rumo à cidade onde seus filhos estão estundando.

d) Fabiano e sinha Vitória estão chegando à cidade onde encontram o soldado amarelo, o qual, noutra oportunidade, espanca e aprisiona Fabiano.

e) Porque se trata de uma obra modernista, pós-simbolista, o autor revela um dos sonhos de Fabiano, da noite em que dormiu na prisão.

 

    Fabiano curou no rasto a bicheira da novilha raposa. Levava no aió um frasco de creolina, e, se houvesse achado o animal, teria feito o curativo ordinário. Não o encontrou, mas supôs distinguir as pisadas dele na areia, baixou-se, cruzou dois gravetos no chão e rezou. Se o bicho não estivesse morto, voltaria para o curral, que a oração era forte. Cumprida a obrigação, Fabiano levantou-se com a consciência tranquila e marchou para casa.

 

rasto = rastro

aió = bolsa de caça trançada com fibras de uma planta (caroá ou gravatá)

 

22. Assinale a alternativa correta.

a) O narrador deixa entrever sua simpatia pelo procedimento da personagem ao caracterizar como ordinário o curativo que não foi feito.

b) O relato denota que a ação da personagem não poderia ter êxito, pois se realizou baseada numa suposição infundada.

c) O último período representa as convicções da personagem, apreendidas em seu íntimo, mas relatadas pelo narrador.

d) O emprego de curou, na frase inicial, denota que o narrador atesta a eficácia da prática popular citada.

e) No último período está manifesto que a personagem tem a consciência tranquila por ter feito o que pôde, mas que não tinha nenhuma esperança de ter sucesso.

 

23. Qual das alternativas abaixo não representa um entrave ou limitação na vida de Fabiano, protagonista de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos?

a) O analfabetismo.

b) O soldado amarelo

c) A seca

d) A cachorra Baleia

e) O patrão

 

     Acordou sobressaltado. Pois não estava misturando as pessoas, desatinando? Talvez fosse efeito da cachaça. Não era: tinha bebido um copo, um tanto assim, quatro dedos. Se lhe dessem tempo, contaria o que se passara.

     Ouviu o falatório desconexo do bêbado, caiu numa indecisão dolorosa. Ele também dizia palavras sem sentido, conversava à toa. Mas irou-se com a comparação, deu marradas na parede. Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo. Desentupia o bebedouro, consertava as cercas, curava os animais - aproveitava um casco de fazenda sem valor. Tudo em ordem, podiam ver. Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?

     Se não fosse aquilo... Nem sabia. O fio da ideia cresceu, engrossou - e partiu-se. Difícil pensar.

 

24. O fragmento transcrito acima corresponde ao momento em que a personagem Fabiano, após ter sido preso e surrado injustamente pelo "soldado amarelo", reflete sobre sua situação. A técnica por meio da qual o narrador representa o fluxo de consciência da personagem é a do:

a) discurso direto.

b) discurso indireto.

c) discurso indireto livre.

d) narrador personagem.

e) narrador personagem protagonista.

 

25. Por meio dessa técnica (o discurso indireto livre, que permite o fluxo da consciência da personagem), pode-se dizer que o narrador NÃO realiza:

a) o julgamento e a condenação das ações da personagem que se embebedara.

b) a construção da imagem de Fabiano como um homem rude que não consegue defender-se por não ter o domínio das palavras.

c) a apresentação de uma visão realista e crítica do universo desumano em que se insere a personagem.

d) uma dramatização da "fala" interior da personagem à medida que as ideias se constroem na sua consciência.

e) a representação da revolta de Fabiano em relação à injustiça que sofrera.

 

26. O que não podemos afirmar sobre a obra de Graciliano Ramos?

a) trata-se uma investigação psicológica em cenários frequentemente sertanejos;

b) evidencia-se na literatura brasileira como um estudo sofisticado da condição humana;

c) ocupa-se menos com a descrição e mais com a reflexão;

d) procura sofisticar as falas dos personagens para se aprofundar no estudo da condição humana;

e) identifica as principais questões humanas dentro de circunstâncias sociais e econômicas adversas.

 

27. (FUVEST) Leia o trecho para responder ao teste.

 

    Fizeram alto. E Fabiano depôs no chão parte da carga, olhou o céu, as mãos em pala na testa. Arrastara-se até ali na incerteza de que aquilo fosse realmente mudança. Retardara-se e repreendera os meninos, que se adiantavam, aconselhara-os a poupar forças. A verdade é que não queria afastar-se da fazenda. A viagem parecia-lhe sem jeito, nem acreditava nela. Preparara-a lentamente, adiara-a, tornara a prepará-la, e só se resolvera a partir quando estava definitivamente perdido. Podia continuar a viver num cemitério? Nada o prendia àquela terra dura, acharia um lugar menos seco para enterrar-se. Era o que Fabiano dizia, pensando em coisas alheias: o chiqueiro e o curral, que precisavam conserto, o cavalo de fábrica, bom companheiro, a égua alazã, as catingueiras, as panelas de losna, as pedras da cozinha, a cama de varas. E os pés dele esmoreciam, as alpercatas calavam-se na escuridão. Seria necessário largar tudo? As alpercatas chiavam de novo no caminho coberto de seixos.

 

Assinale a alternativa incorreta:

a) O trecho pode ser compreendido como suspensão temporária da dinâmica narrativa, apresentando uma cena "congelada", que permite focalizar a dimensão psicológica da personagem.

b) Pertencendo ao último capítulo da obra, o trecho faz referência tanto às conquistas recentes de Fabiano, quanto à desilusão do personagem ao perceber que todo seu esforço fora em vão.

c) A resistência de Fabiano em abandonar a fazenda deve-se à sua incapacidade de articular logicamente o pensamento e, portanto, de perceber a gradual, mas inevitável, chegada da seca.

d) A expressão "coisas alheias" reforça a crítica, presente em toda obra, à marginalização social por meio da exclusão econômica.

e) As referências a "enterro" e "cemitério" radicalizam a caracterização das "vidas secas" do sertão nordestino, uma vez que limitam as perspectivas do sertanejo pobre à luta contra a morte.

 

28. Assinale a alternativa em que se apresenta um discurso indireto livre.

a) “– Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.”

b) “Fabiano fizera-se desentendido e oferecera seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito.”

c) “Rezou baixinho uma ave-maria, já tranquila, a atenção desviada para um buraco que havia na cerca do chiqueiro das cabras.”

d) “Aquele homem era assim mesmo, tinha o coração perto da goela.”

e) “– Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.”

 

    O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado. (…) Alguns dias antes estava sossegado, preparando látegos, consertando cercas. De repente, um risco no céu, outros riscos, milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes. (…)

 

29. (PUC-SP) O trecho acima é de “Vidas Secas”, obra de Graciliano Ramos. Dele, é incorreto afirmar-se que:

a) prenuncia nova seca e relata a luta incessante que os animais e o homem travam na constante defesa da sobrevivência.

b) marca-se por fatalismo exagerado, em expressão como “o sertão ia pegar fogo”, que impede a manifestação poética da linguagem.

c) atinge um estado de poesia, ao pintar com imagens visuais, em jogo forte de cores, o quadro da penúria da seca.

d) explora a gradação, como recurso estilístico, para anunciar a passagem das aves a caminho do Sul.

e) confirma, no deslocamento das aves, a desconfiança iminente da tragédia, indiciada pela “brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes”.

 

VUNESP – Instrução: As questões de números 28 a 32 tomam por base uma passagem do romance regionalista “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos (1892-1953).

 

    Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.

    Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repente estourava:

    – Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.

    Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.

    Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.

    Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!

    O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.

    Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.

 

30. Identifique, entre os quatro exemplos extraídos do texto, aqueles que se apresentam em discurso indireto livre:

I. Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos.

II. – Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer.

III. Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!

IV. Não era preciso barulho não.

a) I e II.

b) II e III.

c) III e IV.

d) I, II e III.

e) II, III e IV.

 

31. No fragmento apresentado, de “Vidas Secas”, as formas verbais mais frequentes se enquadram em dois tempos do modo indicativo. Marque a alternativa que indica, pela ordem, o tempo verbal predominante no segundo parágrafo e o que predomina no quinto parágrafo.

a) pretérito perfeito – pretérito imperfeito.

b) presente – pretérito imperfeito.

c) presente – pretérito perfeito.

d) futuro do pretérito – presente.

e) pretérito imperfeito – pretérito perfeito.

 

32. Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. A forma verbal queimava, no período acima, apresenta o sentido de:

a) ignorava.

b) assava.

c) destruía.

d) marcava.

e) prejudicava.


33. "Quem é do chão não se trepa".
Fabiano emprega duas vezes este provérbio para retratar com certo determinismo sua situação, que ele considera impossível de ser mudada. Há outros que poderiam ser utilizados para retratar essa atitude de desânimo ante algo que parece irreversível. Na relação de provérbios abaixo, aponte aquele que não poderia substituir o empregado por Fabiano, em virtude de não corresponder àquilo que a personagem queria significar.

a) Quem nasce na lama morre na bicharia.

b) Quem semeia ventos colhe tempestades.

c) Quem nasceu pra tostão não chega a milhão.

d) Quem nasceu pra ser tatu morre cavando.

e) Os paus, uns nasceram para santos, outros para tamancos.

 

34. Lendo atentamente o fragmento de Vidas secas, percebe-se que o foco principal é o das transações entre Fabiano e o proprietário da fazenda. Aponte a alternativa que não corresponde ao que é efetivamente exposto pelo texto.

a) O proprietário era, na verdade, um benfeitor para Fabiano.

b) Fabiano declarava-se “um bruto” ao proprietário.

c) proprietário levava sempre vantagem na partilha do gado.

d) Fabiano sabia que era enganado nas contas, mas não conseguia provar.

e) Fabiano aceitava a situação e se resignava, por medo de ficar sem trabalho.

 

35. (PUC-SP) O crítico Álvaro Lins, referindo-se a Vidas Secas, obra de Graciliano Ramos, afirma que, além de ser o mais humano e comovente dos livros do autor, é “o que contém maior sentimento da terra nordestina, daquela parte que é áspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estão ligados teluricamente”. Por outro lado, merece destaque, dentre os elementos constitutivos dessa obra, a paisagem, a linguagem e o problema social. Assim, a respeito da linguagem de Vidas Secas, é correto afirmar que

a) apresenta um estilo seco, conciso e sem sentimentalismo, o que retira da obra a força poética e a destitui de características estéticas.

b) se caracteriza pelo vocabulário erudito e próprio dos meios urbanos, marcado por estilo rebuscado e grandiloquente.

c) revela um estilo seco, de frase contida, clara e correta, reduzida ao essencial e com vocabulário meticulosamente escolhido.

d) apresenta grande poder descritivo e força pictórica, mas apoia-se em sintaxe marcada por períodos longos e de estrutura subordinativa, o que dificulta sua compreensão.

e) se marca por estilo frouxo e sintaxe desconexa, à semelhança da própria estrutura da novela, que se constrói de capítulos soltos e ordenação circular.

 

    O soldado, magrinho, enfezadinho, tremia. E Fabiano tinha vontade de levantar o facão de novo. Tinha vontade, mas os músculos afrouxavam. Realmente não quisera matar um cristão: procedera como quando, a montar brabo, evitava galhos e espinhos. Ignorava os movimentos que fazia na sela. Alguma coisa o empurrava para a direita ou para a esquerda. Era essa coisa que ia partindo a cabeça do amarelo. Se ela tivesse demorado um minuto, Fabiano seria um cabra valente. Não demorara. A certeza do perigo surgira - e ele estava indeciso, de olho arregalado, respirando com dificuldade, um espanto verdadeiro no rosto barbudo coberto de suor, o cabo do facão mal seguro entre os dois dedos úmidos.

    Tinha medo e repetia que estava em perigo, mas isto lhe pareceu tão absurdo que se pôs a rir. Medo daquilo? Nunca vira uma pessoa tremer assim. Cachorro. Ele não era dunga na cidade? Não pisava os pés dos matutos, na feira? Não botava gente na cadeia? Sem-vergonha, mofino.

    Irritou-se. Por que seria que aquele safado batia os dentes como um caititu? Não via que ele era incapaz de vingar-se? Não via? Fechou a cara. A ideia do perigo ia-se sumindo. Que perigo? Contra aquilo nem precisava facão, bastavam as unhas. Agitando os chocalhos e os látegos [açoites, chibatas, chicotes], chegou a mão esquerda, grossa e cabeluda, à cara do polícia, que recuou e se encostou a uma catingueira. Se não fosse a catingueira, o infeliz teria caído.

    Fabiano pregou nele os olhos ensanguentados, meteu o facão na bainha. Podia matá-lo com as unhas. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. Sim senhor. Aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas inofensivas. Estava certo? O rosto de Fabiano contraía-se, medonho, mais feio que um focinho. Hem? Estava certo? Bulir com as pessoas que não fazem mal a ninguém. Por quê? Sufocava-se, as rugas da testa aprofundavam-se, os pequenos olhos azuis abriam-se demais, numa interrogação dolorosa.

    O soldado encolhia-se, escondia-se por detrás da árvore. E Fabiano cravava as unhas nas palmas calosas. Desejava ficar cego outra vez. Impossível readquirir aquele instante de inconsciência. Repetia que a arma era desnecessária, mas tinha a certeza de que não conseguiria utilizá-la - e apenas queria enganar-se. Durante um minuto a cólera que sentia por se considerar impotente foi tão grande que recuperou a força e avançou para o inimigo.

 

36. O trecho “de levantar o facão” – primeiro parágrafo – deve ser reconhecido como

a) complemento nominal

b) adjunto adnominal

c) complemento verbal direto

d) adjunto adverbial

e) objeto indireto

 

37. O verbo “quisera” (primeiro parágrafo) pode ser substituído, sem alterar o sentido da frase, por

a) “tinha vontade de” e se refere ao tempo futuro.

b) “quis” e se refere ao tempo em que levantaria o facão pela segunda vez.

c) “queria” e se refere a um tempo posterior ao momento em que levantou o facão pela primeira vez.

d) “tinha querido” e se refere ao tempo em que levantou o facão pela primeira vez.

e) “gostaria de” e se refere a um tempo posterior ao instante em que levantaria o facão pela segunda vez.

 

38. Quem é o sujeito do verbo “demorar”, no período “Não demorara”, do primeiro parágrafo?

a) certeza

b) cabeça

c) cabra

d) sela

e) coisa

 

39. O sintagma “com dificuldade”, no primeiro parágrafo, deve ser classificado como

a) adjunto adnominal

b) adjunto adverbial

c) objeto direto

d) objeto indireto

e) complemento nominal

 

40. No segundo parágrafo,

a) o termo “daquilo” refere-se à certeza de estar em perigo, “dunga” significa corajoso, “matuto” é o mesmo que jeca e “mofino” é sinônimo de triste.

b) o termo “daquilo” refere-se ao facão, “dunga” significa autoridade, “matuto” é o mesmo que roceiro e “mofino” é sinônimo de desafortunado.

c) o termo “daquilo” refere-se à situação de vida ou morte, “dunga” significa destemido, “matuto” é o mesmo que ignorante e “mofino” é sinônimo de miserável.

d) o termo “daquilo” refere-se ao soldado amarelo, “dunga” significa valentão, “matuto” é o mesmo que caipira e “mofino” é sinônimo de infeliz.

e) o termo “daquilo” refere-se desejo de vingança, “dunga” significa bravo, “matuto” é o mesmo que ingênuo e “mofino” é sinônimo de desgraçado.

 

41. “de vingar-se” – terceiro parágrafo – cumpre a função sintática de

a) complemento nominal

b) adjunto adnominal

c) objeto indireto

d) adjunto adverbial

e) objeto direto

 

42. Na oração “bastavam as unhas”, do terceiro parágrafo, o verbo é

a) intransitivo

b) transitivo direto

c) transitivo indireto

d) transitivo direto e indireto

e) de ligação

 

43. Considerando os dois últimos parágrafos do excerto, assinale a alternativa incorreta.

a) A repetição da oração interrogativa “Estava certo?” caracteriza o discurso indireto livre, bastante comum em todo o romance.

b) “ficar cego” e “readquirir aquele instante de inconsciência” referem-se ao impulso que sentiu quando levantou o facão para matar o soldado amarelo.

c) Fabiano julgava-se uma criatura inofensiva.

d) Fabiano passara na cadeia a noite anterior ao encontro com o soldado amarelo.

e) O desejo de vingança de Fabiano era menor que a consciência de sua condição.

 

    Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.

    Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repente estourava:

    – Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.

    Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.”

 

44. O regionalismo da segunda geração modernista também é conhecido como neorrealismo. Justamente porque evidencia uma realidade em que o ser humano vive constantemente diante dos seus limites. Quando o personagem Fabiano repete o provérbio “Quem é do chão não se trepa”, ele reafirma uma das características fundamentais do período realista. Qual?

a) o materialismo realista

b) o patologismo naturalista

c) o formalismo parnasiano

d) o determinismo naturalista

e) o positivismo realista


45. No discurso direto do trecho transcrito acima, Fabiano

a) argumenta que não deve se dobrar à ausência de escrúpulos do patrão.

b) constata que não é fácil ganhar dinheiro, por isso não pode se deixar roubar tão facilmente.

c) quer se convencer de que a prioridade é manter o emprego.

d) se mostra sentido com a perda do dinheiro que receberia pelo cavalo, dinheiro que mataria sua fome nos próximos meses.

e) se refere aos argumentos do patrão, que tentava convencê-lo a ser mais ambicioso.

 

    Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que se demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.

    Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se:

    - Você é um bicho, Baleia.

    Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.

 

(Trecho do segundo capítulo de Vidas Secas, de Graciliano Ramos)

 

46. Considerando o texto transcrito acima, identifique a alternativa incorreta.

a) No fragmento, sentimentos como a tristeza e a ternura embalam os pensamentos do personagem.

b) Fabiano não formava um andar ereto, retilíneo e objetivo.

c) No terceiro parágrafo “- Você é um bicho, Baleia”, Fabiano se sente e se mostra superior à cachorra.

d) No período “Um vagabundo empurrado pela seca”, o narrador afirma que Fabiano admitia ser um homem manipulado pela seca.

e) No primeiro parágrafo, mostra-se um conflito entre a vontade de seguir viagem e o desejo de se fixar na terra.

 

47. Qual das afirmativas não corresponde ao que está exposto no excerto acima?

a) A expressão “judeu errante” se refere a uma lenda da tradição cristã. Diz essa lenda que o judeu Ahsverus trabalhava numa loja de couros, em Jerusalém, numa das ruas por onde passavam os condenados à morte por crucificação, carregando suas cruzes. Na Sexta-feira Santa, Jesus teria caído, sob o peso da cruz, bem em frente à loja onde trabalhava Ahsverus, e este, zombando, teria gritado para o condenado que "caminhasse". Jesus teria profetizado que ele, o sapateiro, é quem caminharia pelo mundo até o fim dos tempos.

b) A palavra “companheiro”, no último parágrafo, refere-se ao cavalo.

c) As palavras incomuns ao cotidiano de Fabiano, eram-lhe inúteis e perigosas.

d) Fabiano e sua família passaram uma noite embaixo de uma árvore, antes de se acomodarem na casa.

e) Graciliano Ramos demonstra bastante interesse pelos períodos longos.

 

48. Assinale a alternativa incorreta, a respeito do excerto acima.

a) A frase nominal “Engano”, primeiro parágrafo, consiste-se num reducionismo da oração “Isso é um engano”.

b) Fabiano era econômico com as palavras, frequentemente expressava suas vontades com monossílabos.

c) A linguagem com que Fabiano se comunicava com os animais era repleta de exclamações e onomatopeias.

d) Quando cavalgava, o corpo de Fabiano ficava todo colado ao corpo do animal.

e) Apesar de conviver diariamente com animais, Fabiano coexistia bem com pessoas.

 

49. Aponte a função da linguagem predominante no excerto.

a) conativa

b) expressiva

c) metalinguística

d) poética

e) referencial

 

50. “E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia”. Assinale a alternativa em que se encontra a melhor definição para a palavra “gutural”.

a) fala estridente, forte, impositiva.

b) linguagem vagarosa, lenta, interminável.

c) palavreado popular, repleto de erros ortográficos.

d) som rouco, grave ou profundo que provém da garganta.

e) voz aguda, fina, e sibilante.

 

51. A palavra “seca”, no quinto período do excerto, sofre um processo de

a) aliteração

b) coliteração

c) concatenação

d) gradação

e) personificação

 

52. No período “às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias”, o termo “brutos” se refere aos

a) animais

b) fazendeiros

c) filhos

d) peões

e) urubus

 

53. ANÁLISE MORFOLÓGICA: “Um vagabundo empurrado pela seca” – Identifique alternativa incorreta.

a) “empurrado” é verbo em forma nominal do gerúndio.

b) “pela” é preposição.

c) “seca” é substantivo formado a partir de um adjetivo.

d) “um” é artigo indefinido.

e) “vagabundo” é adjetivo substantivado.

 

54. ANÁLISE SINTÁTICA: “Um vagabundo empurrado pela seca” – Assinale a alternativa incorreta.

a) “empurrado pela seca” é oração subordinada adjetiva restritiva.

b) “pela seca” é agente da voz passiva.

c) “que” é sujeito paciente no período desenvolvido “ele é um vagabundo que é empurrado pela seca”.

d) “um vagabundo” é predicativo do sujeito.

e) “vagabundo” é antecedente de pronome relativo “que”, na frase estendida “ele é um vagabundo que é empurrado pela seca”.

    A família estava reunida em torno do fogo, Fabiano sentado no pilão caído, sinha Vitória de pernas cruzadas, as coxas servindo de travesseiros aos filhos. A cachorra Baleia, com o traseiro no chão e o resto do corpo levantado, olhava as brasas que se cobriam de cinza.

    Estava um frio medonho, as goteiras pingavam lá fora, o vento sacudia os ramos das catingueiras, e o barulho do rio era como um trovão distante.

    Fabiano esfregou as mãos satisfeito e empurrou os tições com a ponta da alpercata. As brasas estalaram, a cinza caiu, um círculo de luz espalhou-se em redor da trempe de pedras, clareando vagamente os pés do vaqueiro, os joelhos da mulher e os meninos deitados. De quando em quando estes se mexiam, porque o lume era fraco e apenas aquecia pedaços deles. Outros pedaços esfriavam recebendo o ar que entrava pelas rachaduras das paredes e pelas gretas da janela. Por isso não podiam dormir. Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era propriamente conversa, eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espirito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.

    Fabiano tornou a esfregar as mãos e iniciou uma história bastante confusa, mas como só estavam iluminadas as alpercatas dele, o gesto passou despercebido. O menino mais velho abriu os ouvidos, atento. Se pudesse ver o rosto do pai, compreenderia talvez uma parte da narração, mas assim no escuro a dificuldade era grande. Levantou-se, foi a um canto da cozinha, trouxe de lá uma braçada de lenha.

 

(Trecho do capítulo Inverno, de Vidas Secas)

 

GRETAS: fendas, aberturas.

LUME: fogo, chama.

TIÇÕES: pedaços de lenha ou de carvão acesos ou meio queimados.

TREMPE: chapa de ferro com buracos arredondados, colocada em fogão a lenha sobre o espaço destinado ao fogo, para sustentar as panelas.

 

55. INTERPRETAÇÃO DE TEXTO – Após a releitura do terceiro parágrafo do excerto acima, marque a opção incorreta.

a) A capacidade de expressão dos personagens era mais rápida que a sucessão de imagens.

b) Falavam alto porque assim tinha a sensação de que eram mais explícitos.

c) As falas de Fabiano e sinha Vitória formavam um discurso impreciso, confuso, disperso.

d) Os personagens não interagiam: expunham imagens de seus pensamentos involuntariamente, indiferentes ao discurso do outro.

e) Segundo o narrador, não havia diálogo, havia monólogos.

 

56. FIGURAS DE LINGUAGEM – No trecho “sinha Vitória de pernas cruzadas”, no primeiro parágrafo, omite-se o sentido da palavra “sentada”, já enunciado no trecho anterior. Que nome se dá a essa omissão?

a) concatenação

b) elipse

c) epístrofe

d) hipérbato

e) zeugma

 

57. VOCABULÁRIO – A palavra gutural – terceiro parágrafo – refere-se a um som produzido

a) na garganta

b) nas fossas nasais

c) no palato

d) nos lábios

e) no véu palatino

 

58. ACENTUAÇÃO GRÁFICA – A palavra “ambíguo” – terceiro parágrafo – está acentuada graficamente porque é

a) oxítona concluída com ditongo.

b) paroxítona acabada com tritongo.

c) proparoxítona.

d) oxítona finalizada com “o”.

e) paroxítona terminada com ditongo crescente.

 

59. No início do terceiro parágrafo, o narrador diz que “Fabiano esfregou as mãos satisfeito”. Essa satisfação emergia porque Fabiano

a) estava entusiasmado com a viagem que fariam no dia seguinte para a cidade grande.

b) havia vendido seu gado a um preço bom, suficiente para atravessar o inverno.

c) resolvera ficar naquela casa definitivamente.

d) salvara a cachorra Baleia de uma doença grave.

e) tinha uma família e todos estavam abrigados, aquecidos, sem fome ou sede.

 

60. ANÁLISE MORFOLÓGICA – Tome o período seguinte como objeto de análise e aponte alternativa incorreta: “Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto”.

a) “a” é artigo definido feminino singular.

b) “alto” é advérbio de modo.

c) “como” é interjeição.

d) “deficiência” é substantivo.

e) “eram” é verbo da segunda conjugação, flexionado na terceira pessoa do plural do pretérito imperfeito do indicativo.

 

61. ANÁLISE SINTÁTICA – Analise o período adiante e assinale a alternativa incorreta: “Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto”.

a) “como os recursos de expressão eram minguados” é oração subordinada adverbial concessiva.

b) “falando alto” é oração subordinada adverbial de modo reduzida de gerúndio.

c) “minguados” é predicativo do sujeito.

d) “recursos” é núcleo do sujeito simples.

e) “remediar a deficiência” é oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo.


    O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado.

    Sinha Vitória falou assim, mas Fabiano resmungou, franziu a testa, achando a frase extravagante. Aves matarem bois e cabras, que lembrança! Olhou a mulher, desconfiado, julgou que ela estivesse tresvariando. Foi sentar-se no banco do copiar, examinou o céu limpo, cheio de claridades de mau agouro, que a sombra das arribações cortava. Um bicho de penas matar o gado!Provavelmente sinha Vitória não estava regulando.

    Fabiano estirou o beiço e enrugou mais a testa suada: impossível compreender a intenção da mulher. Não atinava. Um bicho tão pequeno! Achou a coisa obscura e desistiu de aprofundá-la. Entrou em casa, trouxe o aió, preparou um cigarro, bateu com o fuzil na pedra, chupou uma tragada longa. Espiou os quatro cantos, ficou alguns minutos voltado para o norte, coçando o queixo.

    – Chi! Que fim de mundo!

    Não permaneceria ali muito tempo. No silêncio comprido só se ouvia um rumor de asas.

    Como era que sinha Vitória tinha dito? A frase dela tornou ao espírito de Fabiano e logo a significação apareceu. As arribações bebiam a água. Bem. O gado curtia sede e morria. Muito bem. As arribações matavam o gado. Estava certo. Matutando, a gente via que era assim, mas sinha Vitória largava tiradas embaraçosas. Agora Fabiano percebia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de sinha Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situações difíceis encontrava saída. Então! Descobrir que as arribações matavam o gado! E matavam. àquela hora o mulungu do bebedouro, sem folhas e sem flores, uma garrancharia pelada, enfeitava-se de penas.


Trecho do capítulo “O mundo coberto de penas”, da obra VIDAS SECAS, de Graciliano Ramos.


ARRIBAÇÃO: deslocamento de animais, geralmente aves, de uma região para outra em determinadas épocas ou estações do ano.

COPIAR: teto de uma só água, geralmente à entrada de um prédio, suspenso de um lado por colunas ou pilastras e apoiado, pelo outro, contra uma parede do edifício.

MULUNGU: árvore de até 20 metros, com madeira branca.


62. O último período do primeiro parágrafo – “O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado” – é exemplo de

a) discurso direto

b) discurso indireto

c) discurso indireto livre


63. O trecho “o sertão ia pegar fogo”, do primeiro parágrafo, exemplifica qual figura de linguagem?

a) aliteração

b) catacrese

c) hipérbole

d) metonímia

e) sinédoque


64. Como deve ser lido o primeiro substantivo do excerto?

a) múlungu

b) mulúngu

c) mulungú

d) mulúngú

e) múlúngú


65. No primeiro parágrafo, o narrador se refere a Fabiano e Sinha Vitória usando apenas a palavra “casal”, que se trata de um predicativo dos dois. Que nome se dá a essa figura de linguagem?

a) anacoluto

b) hipálage

c) antonomásia

d) hipérbato

e) assonância


66. “No silêncio comprido só se ouvia um rumor de asas”. Penúltimo parágrafo. Na expressão “silêncio comprido” temos a ocorrência da figura de linguagem denominada

a) anáfora

b) apóstrofe

c) epífora

d) eufemismo

e) sinestesia


67. ANÁLISE MORFOLÓGICA. “Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de sinha Vitória”. Último parágrafo do excerto. Aponte a alternativa incorreta.

a) “com” é preposição.

b) “encantado” é advérbio.

c) “esperteza” é substantivo.

d) “se” é pronome pessoal.

e) “sinha” é pronome de tratamento.


68. ANÁLISE SINTÁTICA. “Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de sinha Vitória”. Último parágrafo do excerto. Assinale a alternativa incorreta.

a) “com a esperteza” é complemento nominal.

b) “de sinha Vitória” é adjunto adnominal.

c) “encantado” é predicativo do sujeito.

d) “Esqueceu a felicidade próxima” é oração coordenada assindética.

e) “riu-se encantado com a esperteza de sinha Vitória” é oração coordenada sindética aditiva.


69. Considerando o excerto acima, podemos inferir que o narrador de “Vidas Secas” é

a) observador

b) personagem protagonista

c) onisciente

d) personagem secundário

e) personagem

 

    gabarito

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