ensaios

Sociedades Criacionistas e Desesperadas

      Apesar de toda a ascensão das Ciências sobre o comportamento do homem moderno, o evolucionismo ainda tem sérias dificuldades diante do criacionismo.     Embora o evolucionismo darwinista tenha surgido há mais de 150 anos, 33% dos norte-americanos não acreditam na Teoria da Evolução (Pew Research Center, 2013).
      As consequências dessa descrença são desastrosas. O evolucionismo, darwinista ou não, é fonte de esperanças. Um indivíduo, em condições extremamente críticas, quando está convicto de que seremos melhores porque fomos piores, esse indivíduo, mesmo cercado por fatores negativos, quer se manter em condições de ascensão social. E se manter em condições de ascensão social significa persistir atento à ética, à moral e à legalidade, para continuar livre e portador de todos os direitos civis.
      É esse o desejo que põe o miserável em defesa do capitalismo. Ele não tem, mas quer preservar a possibilidade e o direito de vir a ter. Esse é “o ópio do povo”. Não a religião. Marx não podia enxergar tão longe. Mesmo as religiões mais ortodoxas exercitam a fé na existência de um mundo melhor. Qualquer probabilidade de vir a ser dono de uma ilha em que terá o poder de satisfazer todas as suas vontades, isso é o que impossibilita a luta de classes, porque o miserável não vai destruir a classe social à qual ele quer pertencer.
      Ótimo! Vamos nivelar por baixo? Todos pobres, porque a maioria é pobre? Não. Vamos colaborar para que todos tenham o melhor que a vida pode nos oferecer. O evolucionismo nos mantém esperançosos de que seremos mais éticos e solidários. O darwinismo significa a crença do homem no próprio homem.
      O criacionismo é signo de fé, porém, restringe sua fé a Deus. Ele é onipotente, onisciente e onipresente, mas o ser humano, apesar de ter sido criado “à semelhança de Deus”, é tragicamente limitado. E o livre arbítrio o arrasta ao pecado.
      Na Idade Média, os europeus queriam morrer jovens, preferencialmente nas Cruzadas, para pecar menos e conquistar o Céu. Morte de crianças não era chorada, era invejada. Viravam anjos. A vida era vista como uma armadilha do diabo. Quem vivia mais também pecava mais. E se endereçava ao Inferno.
      A ideia de um homem pronto, que não evoluiu e também não evoluirá, entristece a vida. Na infância, porque somos ingênuos e inocentes, enquanto não conhecemos o possível da realidade, vivemos um momento intenso de felicidade. Depois da infância, quando enfrentamos as imperfeições da humanidade, precisamos da esperança, da convicção de que fomos piores e, portanto, seremos melhores.
      A mídia tem criado um mundo desesperador. Os editores interessados apenas em vender anúncios transformaram jornais e revistas em diários do caos. Assassinatos, golpes, chacinas, catástrofes, corrupção, terrorismo. Instituíram que falar mal é notícia e falar bem é propaganda; que a propaganda é paga porque a notícia é gratuita; ou seja: falar bem, só pagando.
      Os jornalistas não criaram esses diários do caos obviamente sozinhos. O público consumidor de notícias gosta da desgraça, porque a notícia o faz olhar para quem está pior e o reconforta, enquanto a propaganda o faz olhar para quem está melhor e atesta sua incompetência. Algumas boas notícias sobrevivem porque seus consumidores se identificam com o personagem bem sucedido que eles gostariam de ser.
      A notícia frequentemente é pessimista e cria um mundo desastroso e desesperador; a propaganda é otimista, dá esperança; porém, numa relação de quantidades, a boa notícia não tem força para se impor, são esporádicas, enquanto a notícia ruim é constante, prega, convence pela insistência.
      A combinação do ideário criacionista com a imagem do mundo desastroso construído pela mídia dá como resultados homicídios e suicídios. A notícia recorrente de que um estudante atirou contra os ocupantes de uma escola e em seguida se matou é própria dessa combinação. Não estou dizendo que essa é a fórmula de todos os casos ocorridos nos Estados Unidos; mas, sim, que esse é o princípio das mais estranhas variantes de um mesmo caso.
      A esperança não é necessária a uma tribo isolada da Amazônia, porque não conhecem escassezes nem inimigos. Nas grandes cidades do século 21, porém, convivemos constantemente com carências e adversários. Precisamos muito de fé, esperanças, convicções, confiança, promessas, crenças, de perspectivas e expectativas otimistas.
      Para muitos, justamente porque evoluímos, fés cegas não resolvem mais. Precisam de argumentos menos místicos, mais lógicos. E existem. O poeta barroco brasileiro Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno, em seu poema “Nasce o Sol”, argumenta genialmente a respeito das perspectivas humanas. Conclui o soneto com a ideia de que marchamos da ignorância para a sabedoria.

NASCE O SOL – Gregório de Matos
 
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
 
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
 
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
 
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

      À medida que a realidade se estende e se complica, que os conhecimentos se multiplicam e tornam os produtos menos simples e a competitividade mais aguda, precisamos de uma visão mais ampla da realidade para decidir pelos melhores procedimentos.
      Num mundo com mais de sete bilhões de habitantes, porém, há pessoas de todos os tipos e a maioria, infelizmente, não consegue disponibilizar a si mesma essa visão mais ampla da realidade. Sobrevivem e se desenvolvem intuitivamente. Nesses casos, a fé ou a esperança é necessária e fundamental. Mas não há esperança na cabeça de um criacionista diante do mundo noticiado. Há desespero e fúria. Homicídios e suicídios.

Corrupção Ideológica

      A corrupção não se resolve, no Brasil, porque as elites ainda têm medo do comunismo. Os juízes não prendem os corruptos da direita para não fortalecer a esquerda. Não põem na cadeia políticos do PSDB para não santificar o PT.
      O Maluf, do PP, por exemplo, não está preso porque prestou “impagáveis” serviços aos militares contra os comunistas antes, durante e após o Golpe de 64, por isso merece ser protegido. São milhares de deputados e senadores que tiveram permissão para roubar, desde que nos mantivessem distantes do socialismo.
      Desde 1917, da Revolução Soviética, os países capitalistas convivem com o medo do comunismo. E os políticos idealistas são obrigados a demonstrar seu anticomunismo para não serem vitimados pelas elites militares, políticas e econômicas. Getúlio Vargas entregou Olga aos nazistas para esclarecer seu comportamento político.
      As elites ainda não entenderam que o socialismo só se estabelece em países de cultura homogênea. O comunismo exige um pensamento comum que frequente a unanimidade. No Brasil, no entanto, há poucos interesses comuns. Temos a cultura mais diversificada do planeta; o povo mais miscigenado do mundo. Comunismo é ideia de russo, de chinês, de leste europeu; países onde a intervenção genética ou cultural é mínima.
      Normalmente, o homem não foge do calor para o frio. Os nórdicos desceram para a América; os portugueses vieram para o Brasil. Quem emigrou para o leste europeu? Culturas compactas, menos diversificadas, onde a maioria dos habitantes come, fala, dança, planta, colhe, estuda muito igual são mais conservadoras e propensas às grandes maiorias absolutas, às unanimidades.
      Os capitalistas neuróticos ou paranoicos também não entenderam ainda que o comunismo estava na pauta do século 19. Não está mais. O marxismo é determinista. Na época de Hippolyte Taine (1828-1893), os cientistas defendiam a tese de que os indivíduos eram resultados genéticos e culturais. E eram. Até o início do século 20. Os cidadãos não tinham condições intelectuais nem psicológicas para traçar seu próprio destino. Reproduziam o comportamento dos pais e só assim se sentiam seguros, com alguma chance de felicidade.
      O dadaísmo de Marcel Duchamp (1887-1968) e Tristan Tzara (1896-1963) foi a primeira estocada significativa contra o determinismo cultural apropriado pela burguesia. A Contracultura, nos anos 1960, nocauteou o poder da família e da classe social sobre o indivíduo. Os hippies se enfiaram em roupas velhas, sujas e coloridas, e deixaram os cabelos crescerem exatamente para dizerem que não eram os seus pais.
      Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895) entenderam a história como o desenvolvimento de uma luta de classes. E era. As classes sociais eram estáticas. Quem não tinha sangue azul jamais seria rei. Os soviéticos correram a concluir: se o homem é fruto do meio, muda-se o meio para mudar o homem.
      O comunismo não é opção no século 21. As classes sociais são dinâmicas. Famílias inteiras enriquecem ou empobrecem “da noite pro dia”. Os sujeitos não estão mais interessados em lutar pela classe, estão empenhados em mudar de classe. Trancam-se numa sala de aula ou numa biblioteca e vão atrás dos vestibulares das universidades e do serviço público. Essa história de “Proletários, uni-vos!” ficou nos livros de História.
      Estamos caminhando democraticamente para o desaparecimento das classes D e E. A erradicação do analfabetismo e, em seguida, da baixa instrução extingue as condições de pobreza e miséria. Estamos nos aproximando das classes A, B e C não por condição, mas por opção. Enquanto um opta por acumular riquezas, outro decide por conhecimentos. Alguém pode optar pela classe C porque decidiu se dedicar ao prazer de estar vivo, apenas, sem estresses e consumismos.
      Em 1981, o escritor norte-americano Duane Elgin publicou o livro Simplicidade Voluntária. O autor propõe uma alternativa de comportamento social. O livro se tornou uma referência no ocidente. Três décadas depois do lançamento, milhões de norte-americanos optam por uma vida simples, com menos quantidades e mais qualidades. Os defensores da Simplicidade Voluntária abandonam as classes A e B ou se recusam a gastar suas vidas em função de uma possível ascensão a essas classes em troca de saúde, tempo para a família, amigos e bons sentimentos.
      Os sindicatos estão desaparecendo porque são inúteis. E são inúteis porque não há mais uma coletividade a ser representada. Graças a Deus! O peleguismo puro sangue (do trabalhador) já está farto e saciado. Cada empregado negocia seu próprio salário. No século 19, quando o homem era um ser coletivo, os sindicatos tinham razão de existir, mas hoje somos seres individualistas. Neste século, defender o trabalhador é “meio de vida”. O sindicalista quer antes resolver o seu problema, satisfazer suas gulas.
      O Brasil jamais seria e nunca será comunista, no sentido marxista ou soviético. Gostamos do desenvolvimento individual que promove o todo e não do desenvolvimento do Estado que ampara o indivíduo. O homem não nasceu para ser protegido ou socorrido. Não vivemos em função das nossas limitações, ao contrário, vivemos para superá-las.
      As pessoas que nascem geneticamente aquém das exigências contemporâneas? Para isso desenvolvemos uma democracia capaz de aperfeiçoar a vez e o voto dos cidadãos menos privilegiados pela natureza ou sorte. As leis assistencialistas servem para que o Estado possa ajudar seus cidadãos mais carentes a enfrentar os rigores da seleção natural darwinista. Quem garante essas leis? A democracia e seus cidadãos mais carentes, através do voto.
      Por que o PT está com 12 anos no poder e deve ficar outros 12? Porque essa maioria que precisa da ajuda do Estado reelege os candidatos paternalistas que estão entendendo essa carência de condições sociais e propõem moradia, alimentação, saúde e educação patrocinadas a fim de transformar esses cidadãos em seres criativos e produtivos.
      E daí que o período ficou longo? Estou falando do período gramatical.
      Precisamos virar essa página. Quem tem medo do comunismo? Raúl Castro só quer sobreviver politicamente. O presidente da China não gosta de comunismo, gosta de poder. O PT nasceu socialista? Nem isso. O Lula se achava socialista porque esse era o nome que se dava a quem lutava para não ser escravo. Põe todo mundo pra comer que o socialismo acaba.
      Quem empurrou o mundo para o comunismo foram os capitalistas estúpidos que queriam tudo para si e nada para os outros. O socialismo é cria do liberalismo do século 19. Ferreira Gullar, uma das mentes mais lúcidas da poesia brasileira, autor do Poema Sujo, disse que fazia sentido ser comunista quando os trabalhadores produziam 15, 16, 17 horas por dia em troca de meia dúzia de dólares.
      Para Freud, toda neurose significa deficiência na concepção da realidade. Juízes, políticos, empresários precisam estudar um pouco mais de antropo e sociologia para se livrarem dessa paranoia que justifica a corrupção.
      Para cada quadrilha desarticulada pela polícia federal, existem outras muitas menos vacilonas que continuam articuladas e corroendo o patrimônio público. O tamanho da corrupção é monstruoso e nojento. Um lameiro de sujeitos medíocres, rasteiros, porcos, incapazes de conseguir algum prazer a não ser pelo dinheiro.
      Vivem do poder raso, superficial, de possuir outros sujeitos ainda mais rasteiros. Indivíduos que jamais serão amados por aqueles que compram, mas sem opções se satisfazem com a ilusão do servilismo. Tão pobres que se julgam superiores, porque são chamados de doutores, apesar de nunca terem lido um livro que preste.
      As elites brasileiras precisam compreender que o comunismo não é mais uma ameaça. A democracia tupiniquim é genética e cultural. Falta virar essa página histórica e pôr na cadeia todos os corruptos, de qualquer partido, para o Brasil experimentar a velocidade de crescimento que merece.

Benedito 16

      Em 2005, quando foi eleito o cardeal alemão Joseph Ratzinger para assumir a condição de Sumo Pontífice da Igreja Católica, o Papa escolheu para si o nome Benedictus XVI. E, durante mais ou menos trinta minutos, o nome do papa, no Brasil, foi Benedito, a tradução mais que óbvia para o nome do chefe. Na Alemanha, tornou-se Benedikt. Na língua espanhola é Benedicto. Na Inglaterra, Benedict. Na França, Benoît. Para os italianos, Benedetto. Para o Vaticano, Benedictus, em latim. Por que Bento, para os brasileiros? Porque São Benedito é preto? E Benedito é nome de preto? Desconfio de um racismo velado na denominação brasileira para o Sumo Pontífice.
      Os gramáticos dizem que bento é particípio de abençoar e por isso o nome do Papa estaria de acordo com nome latino Benedictus, que também significa abençoado. Na verdade, o particípio do verbo abençoar é abençoado. Então o Papa deveria chamar-se Abençoado XVI. Bento, por sua vez, é particípio irregular do verbo benzer, que é um verbo abundante e, por isso, possui duas formas: a regular, benzido; e a irregular, bento. O verbo que traz o particípio mais próximo de Benedictus é bendizer, cujo particípio é bendito. Aliás, o único particípio possível, pois bendizer não é um verbo abundante.
      Benedito é uma formação híbrida que contempla a imigração italiana com o bene (bem) e o particípio do verbo dizer da língua portuguesa (dito), formando o antropônimo Benedito, que significa “bem dito”, “afortunado”, “escolhido”, “eleito”.
      Por outro lado, Benedito é um abrasileiramento do benedetto italiano, que significa bendito, e também quer dizer afortunado. Isso significa que Benedito e Bento não são sinônimos. O primeiro é originário do verbo bendizer e o segundo do benzer. Uma pessoa bendita é afortunada, de boa sorte; um indivíduo bento é abençoado. No primeiro caso, bendita, é característica inerente à pessoa, já nasce com ela. Como ninguém escolhe o próprio pai ou a mãe, o país onde nasce, a cor da pele ou as habilidades natas, quando uma pessoa nasce com um grande talento dizemos que é uma pessoa de boa sorte, um bem nascido, um bem aventurado, um bendito. No segundo caso, bento depende da bênção de alguém, e depois do nascimento.
      Quando o anjo aparece a Maria e diz “Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre”, o enviado de Deus não está dizendo que Maria e Jesus foram abençoados e sim que Maria e Jesus são seres de boa ventura, bem-aventurados, benditos, afortunados, de boa sorte, escolhidos por Deus. Tanto que Jesus não se torna Jesus, mediante a uma bênção: Jesus já nasce Jesus.
      Machado de Assis, que era mulato em tempos de escravidão, manifesta-se a respeito no conto “O Alienista”. Seu personagem Simão Bacamarte atribui ao sumo pontífice Benedito VIII a ideia de que Deus tira o juízo dos homens para que não pequem. O conto está no livro “Papéis Avulsos”, de 1882.
 
      Dom Hugo Cavalcante, consultor canônico da CNBB, enviou-me alguns argumentos defendendo o nome português Bento e não Benedito como tradução apropriada para o nome latino Benedictus, adotado pelo papa. Enviou-me através de um artigo já publicado no site da CNBB – “Porque o nome do papa é Bento e não Benedito!”.
      Está no artigo de Dom Hugo que os nomes Bento e Benedito vêm do verbo latino benedicere, que em português significa bendizer, com o particípio passado bendito, na forma erudita, e benzer, com duplo particípio (benzido e bento) na forma popular. O consultor da CNBB, no entanto, não se estendeu para explicar que o verbo latino benedicere sofreu historicamente a oclusão da sílaba di e em seguida da vogal e para formar o verbo popular bencere. O mesmo fenômeno ocorreu com o verbo português bendizer: perdeu o di e depois o e para se tornar benzer. Assim, de bencere e benzer nasceu o nome Bento; e de benedicere e bendizer surgiu o Benedito. Sabendo-se que o papa chamou-se Benedictus e não Bentus, por que Bento e não Benedito 16?
      Dom Hugo também afirma em seu artigo que “como nome próprio, Benedictus, do latim, tem uma só forma em algumas línguas latinas – Benoît (fr), Benedetto (it). Na língua portuguesa o nome Bento já veio com os colonizadores, referindo-se a um santo:” São Bento. Dois problemas: o fato de os portugueses trazerem para o Brasil a devoção a São Bento não significa que o nome do santo tenha alguma relação com o substantivo próprio Benedictus. Bento e Benedito são dois nomes distintos e cada qual com sua origem: Bento é filho de benzer e Benedito é descendente de bendizer, ou seja, bendizer não justifica Bento e benzer não fundamenta Benedito. O segundo problema é de colonização e libertação: somos livres politicamente de Portugal desde 1822 e culturalmente desde a Semana de Arte Moderna de 1922. Se os portugueses querem Bento, isso lá é com eles.
      Noutro argumento, Dom Hugo diz que “na Igreja existe um São Benedito, o qual morreu em 1589, portanto, 1042 anos depois de São Bento. No Brasil, quando os negros começaram sua devoção a esse Santo, chamaram-no, eruditamente, de Benedito, para não confundir com o São Bento dos beneditinos”. Este argumento seria ainda melhor se o consultor da CNBB aproximasse essas informações ao seguinte fato: o primeiro papa Benedictus é do ano 579 e São Benedito morreu em 1589, portanto o nome do papa não tem qualquer relação com o santo Benedito.
      E não tem mesmo. Nem com São Benedito nem com São Bento. Aquele que viria a ser São Bento morreu no ano 547. Apenas 32 anos após sua morte, em 579, deu-se o primeiro papa com o nome Benedictus. Em 593, São Gregório Magno, papa de 590 a 604, escreveu a biografia do fundador da Ordem dos Beneditinos e não se refere a Bento como santo, ou seja, quando foi dirigida pelo papa Benedictus I, São Bento ainda não era santo, não tinha sido ainda canonizado, e só por isso o nome do papa não podia ser uma referência a ele.
 
      O nome do papa é uma celebração a anunciação de Jesus a Maria. “Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. O papa, quando se diz Benedictus, está se entregando ao trabalho cristão como São Pedro o fez sendo um escolhido (um bendito) de Jesus.
      O nome beneditino também não tem relação direta com o nome do santo que fundou a Ordem dos Beneditinos. Segundo os biógrafos, Deus revelou a São Bento “que queria servir-se dele em outro lugar, para conversão de muitas almas; abençoaria seus empreendimentos e tornaria seu nome e sua congregação conhecidos no mundo inteiro. Comovido, em humildade, cheio de gratidão e coragem, o Santo agradeceu a Deus disposição tão favorável”. A Ordem dos Beneditinos foi fundada por São Bento, porém, quando a fundou não celebrou o próprio nome: São Bento fundou uma ordem bendita por Deus, pois teria sido anunciada a ele pelo próprio Deus. Portanto, a Ordem dos Beneditinos não tem esse nome porque foi fundada por São Bento, que ainda não era santo, e sim porque sua ordem foi bendita por Deus.
      A Igreja Católica já foi comandada por dezesseis papas oriundos da Ordem dos Beneditinos, curiosamente nenhum deles chamou-se Benedictus, Benedito ou Bento. Provavelmente porque esses nomes não guardam qualquer relação histórica com ordem de São Bento.
      Por fim, Dom Hugo Cavalcante, consultor canônico da CNBB, mandou-me uma lista discriminando todos os papas denominados Bento, do I ao XVI. Ora, isso não é argumento, já que o nome mesmo desses papas não é Bento nem Benedito, é Benedictus. Basta, portanto, de acordo com a vontade do relator, ler-se Bento onde se lê Benedito ou vice-versa. Como listar com Bento ou Benedito não muda absolutamente nada no nome do papa, também uma lista com Bentos não comprova absolutamente nada.
      Frei Battistini, em seu livro “A Igreja do Deus Vivo”, Editora Vozes, 33ª edição, apresenta uma lista com os nomes dos papas e consta como 62°, do ano 579, natural de Roma, Benedito I e como 258°, do ano 1922, natural de Gênova, Benedito XV. Não consta na lista nenhum papa com o nome Bento.
      Na “Folha de S. Paulo” de 17 de dezembro de 1999, “Joana d'Arc nasceu em Lorena, França, em 1412. Dezenove anos depois, no dia 30 de maio de 1431, morria queimada. Foram precisos quase 500 anos para que fosse canonizada pelo papa Benedito 15, em 1920.”
      Também na “Folha de S. Paulo”, de 17 de abril de 2005, “Benedito 9º, papa entre 1032 e 1045, é um caso bem pouco edificante na história do cristianismo. A ‘Enciclopédia Católica’, em geral comedida, qualifica-o de ‘desgraça no trono de São Pedro’”.
      Por esses e outros argumentos, considerando que Benedicere, Benedictus e Benedito têm a mesma estrutura morfológica e fonética, persistir com Bento, se não é racismo, é, no mínimo, teimosia.
 
      Os escritores modernistas do início do século 20 (Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Oswald de Andrade) dispuseram-se a três grandes objetivos: primeiro, romper com um passado ingênuo e academicista e encerrar um período de produção de arte colonial; segundo, inaugurar uma arte notoriamente brasileira, com elementos e formas deste lugar; e, terceiro, atualizar essa arte brasileira, produzi-la com todos os interesses e recursos do modernismo ocidental consagrados naquele momento histórico.
      Esses escritores e mais uma legião de outros artistas puseram-se a incluir nos poemas e nas telas o cotidiano do Brasil, principalmente a linguagem popular brasileira. Oswald, por exemplo, defendeu de maneira inteligentíssima a língua falada neste país no seu poema Vício na fala: “Para telha dizem teia / Para telhado dizem teiado / E vão fazendo telhados”. E daí, que falem teiado? Não fazem telhados?
      Num outro poema, Relicário, Oswald traz para a literatura termos até então antipoéticos: “No baile da Corte / Foi o Conde d’Eu quem disse / Pra Dona Benvinda / Que farinha de Suruí / Pinga de Parati / Fumo de Baependi / É comê bebê pitá e caí.”. Mário de Andrade, em seu Lundu do escritor difícil, escancarou: “Não carece vestir tanga / Pra penetrar meu caçanje! / Você sabe o francês "singe" / Mas não sabe o que é guariba? / — Pois é macaco, seu mano, / Que só sabe o que é da estranja.”.
      Noventa anos após a exposição de Anita Malfatti, que Monteiro Lobato julgou como se fosse “Paranoia ou Mistificação?”, continuamos com a mesma aversão aos elementos nacionais? Temos de assumir nossas características. Não somos mais os aventureiros que atravessaram o Atlântico durante meses, matando ratos e comendo batatas, para fazer riqueza na colônia e voltar a Portugal com as burras pintadas de ouro e sangue. Temos de assumir nossa brancura e nossa negritude, a minha misticisse e o seu amarelismo, a caboclice dele e o metropolitanismo dela, nossa piticisse, feijoadisse, iaquiçobisse, quibisse.
      Por que não Benedito 16? Por que Bento e não Benedito? Porque Benedito não tem a aura dos mosteiros medievais, não traz em si a autoridade histórica da civilização europeia e populariza demasiadamente a imagem do sumo pontífice? Porque Bento não associa a imagem do papa a uma personagem popular brasileira e assim o mantém numa distância pretensiosa entre o povo brasileiro e a figura semidivina do papa, conservando um respeito místico? Porque Benedito aproximaria o branco do preto e isso descaracterizaria a imagem branca de olhos azuis de Jesus, de Maria e dos papas? Porque Bento conserva a ideia dos brancos dominando negros, dos europeus determinando o comportamento dos povos dominados? Porque Benedito significaria uma supervalorização social e da autoestima dos Beneditos brasileiros e consequentemente uma perspectiva melhor de ascensão social desses Beneditos?
      Alguém me disse que, se houve racismo, é desde o primeiro Benedictus. E daí? Estamos para perpetuar nossos erros ou assumi-los humildemente e aperfeiçoar nossa existência social?
      Academias de letras, artistas e professores, estudantes, cidadãos comprometidos com a história do Brasil, precisamos defender nossa brasilidade sob pena de se ver radicar e perpetuar uma corrupção característica de uma terra de ninguém, capaz de frustrar definitivamente as boas perspectivas de uma circunstância de miscigenação fisiológica e comportamental, de enriquecimento genético e cultural.

maio de 2005

Sobre a origem das palavras

      O psicólogo Wolfgang Köhler, um dos fundadores da teoria da forma, interessado em saber se existe alguma ligação entre as imagens de certos objetos e os sons das palavras que significam esses objetos, inventou duas palavras foneticamente opostas – takete e maluma – e as apresentou a sujeitos de diferentes línguas junto com duas figuras geometricamente opostas: uma, angulosa, e outra, curvilínea. Perguntou, depois, qual figura poderia ser chamada de takete e qual de maluma. Uma parte maior dos entrevistados associou takete à figura angulosa e maluma à figura curvilínea.
      Alfredo Bosi, “O ser e o tempo da poesia”, conclui dessa pesquisa que a “tendência ao isomorfismo existe, mas não é universal. É provável que se dê uma associação frequente de fonemas tensos e surdos com a experiência de objetos cheios de quinas e arestas, e uma associação de fonemas frouxos e sonoros com a experiência de objetos arredondados. O que não impede, porém, que outras associações se tenham desenvolvido na mente da minoria que respondeu de modo diverso”.
      Não é pouca pesquisa para muita conclusão? O fato de uma minoria não acompanhar a maioria – que associou a palavra takete à figura angulosa – não significa que o pesquisador tenha encontrado uma verdade a respeito. A associação de palavras a objetos ou fenômenos é histórica e inconsciente, enquanto as respostas se deram imediata e conscientemente.
      Não foi uma assembleia de filólogos que resolveu atribuir o nome CAVALO, por exemplo, a um equino. A palavra CABALLU nasceu no quotidiano da língua latina e sofreu alterações em seu uso – provocadas pelas circunstâncias (dentre outras) geográficas e culturais – até chegar ao CAVALO da língua portuguesa. O falante que usa o termo CAVALO normalmente não tem ideia da história dessa palavra, mas sabe responder a qual figura prefere associar o vocábulo TAKETE ou MALUMA.
      É, portanto, apenas uma questão de preferência. Que pode estar contaminada por fatos vividos pelo entrevistado uma ou duas horas antes da resposta: uma experiência agradável com um objeto anguloso pode fazê-lo optar por MALUMA diante da figura marcada por “quinas e arestas”.
      Uma pesquisa, para ter alguma validade nesse sentido, teria de ser realizada de uma forma que obtivesse respostas do inconsciente depois de uma convivência prolongada com determinados objetos ou fenômenos e não da consciência apenas que se apresenta no momento da entrevista.
      Köhler apresentou as palavras e as figuras a sujeitos de diferentes línguas. Isso dificulta ainda mais qualquer conclusão, pois a combinação de fonemas para a representação de um determinado objeto ou fenômeno depende da cultura de cada falante. Os portugueses construíram a palavra CAVALO durante a história em que se encontram como personagens o homem português e o cavalo, prevalecendo a informação de que nesse quadrúpede podemos montar e cavalgar.
      Na história dos ingleses com os cavalos, entretanto, na construção da palavra HORSE, prevalece a força, a agilidade e a velocidade do animal. Talvez porque os ingleses tenham usado seus cavalos principalmente em batalhas, mais que os portugueses, e os brasileiros.
      Apesar das muitas evidências, Bosi afirma que “...se excetuamos a onomatopeia, que resulta de um esforço de transpor no som da voz o som das coisas, não se dá isomorfismo absoluto na linguagem humana”. Edward Sapir, “Estudo do simbolismo fonético”, faz a seguinte reflexão: “Pode ser que, originalmente, os gritos primitivos e outros tipos de símbolos que a humanidade desenvolveu tenham tido uma dada conexão com certas emoções, atitudes ou noções, mas nenhuma conexão se pode hoje estabelecer entre palavras, ou combinações de palavras, e aquilo a que elas se referem”. Bosi lista uma porção de vocábulos que incluem a vogal /u/ tonicamente para justificar a expectativa de que as palavras guardam características referentes a seus significados (“bruma / escuro / escuso / fundo / fundura / furna / fusco / gruta / negrume / noturno / penumbra / túnel / turvo / casulo / ocluso / obtuso / oculto / urna / útero / úvula / vulva / fúnebre / luto / sepulcro / tumba / túmulo”), mas, em seguida, questiona: “Se a vogal escura guarda uma relação unívoca e natural com imagens e sensações igualmente escuras, como explicar que o signo da fonte de toda claridade a tenha no seu centro: luz?”.
      Podemos pensar na seguinte ideia: a palavra LUZ, em seu enunciado, desenvolve uma trajetória do escuro /u/ que parte do /l/ para o prolongado /z/; do escuro para o claro; de uma fonte, o /l/, para o infinito metaforizado pela sibilante /z/; das trevas para a luz. Portanto, a palavra LUZ possui a vogal escura porque toda luz nasce nas trevas.
      Uma palavra é uma combinação de unidades fonéticas e o estudo dessa combinação pode ser nominado como sintaxe morfológica.