Trajetória muda do mundo ocidental

Uma leitura alternativa do espetáculo Mundomudo, da Cia. Azul Celeste

            Um homem sobrevive psicologicamente das esperanças que mantém consciente ou inconscientemente. A lâmpada-fonte ideológica do personagem está problematizada.  Alcança-a e a ajusta em acordo com o espaço-tempo em que se encontra.

            No período medieval, o senhor e o vassalo cumprem uma rotina de ordens e obediências. O senhor ordena porque é fraco, porque precisa de quem faça por ele. O vassalo obedece porque também é fraco, porque não consegue ser livre, não pode sustentar sua própria individualidade, não é capaz de traçar sua própria ideologia e moral, precisa de quem dê um sentido à sua vida.

          Senhores e vassalos, porém, esperam por um salvador. Que os liberte de uma existência limitada e coberta de medos.

            Quem não é capaz de traçar sua própria ideologia e moral vê-se obrigado a adotar a ideologia e a moral de quem as tem: os senhores. E esses senhores, porque oferecem um sentido para a vida de seus vassalos, impõem nessa moral suas vontades, inclusive as mais absurdas.

            Para que os vassalos não se cansem nem procurem traçar sua própria ideologia e moral, os senhores garantem pão e circo. Na imagem que o vassalo tem da realidade, o senhor lhe aparece com as cores de um palhaço: um homem bom, inofensivo, que lhe proporciona a distração que o distancia de uma tensão suicida ou revolucionária. Assim se perpetua o poder de quem tem ideologia e moral a oferecer.

            A Igreja trouxe o ideal do Paraíso e a moral cristã para um império sucumbido pela falência dos ideais de dominação do mundo. O catolicismo trouxe a salvação: um destino para a humanidade. Senhores e vassalos se dobraram à igreja romana.

            De repente, os cães ladram porque alguém está se aproximando, só pode ser o nosso salvador. Mas os sons triunfantes, anunciantes da redenção, desaparecem; os cães se calam e as duas classes medievais voltam decepcionadas à rotina.

            O antropocentrismo renascentista, no entanto, afasta os senhores da ideologia e moral cristãs. O vassalo, porque não tem contrapartidas por suas dores, mantém-se filiado ao teocentrismo medieval, esperando pelas compensações celestiais.

            As penas dos anjos do vassalo caem do céu e provocam reações alérgicas em seu senhor. O modelo católico apostólico não mais se ajusta a seus interesses.

            Os cães voltam a ladrar, mas os sons triunfantes, anunciantes da redenção, já não empolgam o senhor. E o salvador não chega. É só o caminhão vendedor de gás de cozinha.

            “Deus morreu, Marx também, e eu não estou bem”.

            Senhores e vassalos abandonam suas ilusões e se deixam embalar pelo prazer possível. Giram alucinadamente num circulo vicioso de prazer pelo prazer. Desprezam passado e futuro e se dedicam exclusivamente ao presente.

            Nessa alucinação encerra-se o ciclo do pão e circo. O vassalo alcança uma estrutura psicológica capaz de sustentar uma principiante individualidade. Vislumbra a própria ideologia e moral e abandona seu senhor, um homem incapaz de sobreviver sozinho, mesmo diante da fartura. Nunca sofreu necessidade suficiente para instigá-lo a ser criativo e produtivo.

            Num mundo com poucas lâmpadas acesas, o vassalo leva consigo sua: fonte de suas esperanças: objeto iluminador de um sentido para sua existência ainda injustificada.

            Antes dá o remédio ao senhor pela última vez por gratidão. O rei foi rei quando precisou de um rei. O senhor lhe deu uma ideologia/moral quando não podia engendrar alguma.

            Uma melancia espatifa-se no centro do circo como símbolo de abundância, diante de um senhor vencido pelo que deixou de ser.

            Ou seja: a natureza pode ser abundante, o mundo pode ser repleto de riquezas, contudo a vida humana não acontece nem brilha fora do corpo humano.

            A história do Mundomudo, no entanto, é otimista. Se o renascimento da individualidade, desde o século XII, não sobreviveu com o Romeu da Julieta ou a Inês de Castro de D. Pedro de Aviz – as instituições não permitiam a ascendência da subjetividade – esse renascimento triunfa no século XXI após a evolução das liberdades individuais proclamadas no século XX.

            A RESPEITO DA FORMA

            Antunes Filho prefere a fala reta (menos vírgulas, menos acidentada, mais impositiva) e o movimento pesado (de cabeça, tronco e membros) para eliminar vícios fonéticos e de gestos. Bob Wilson transforma atores em cenários e cenários em personagens também para eliminar a individualidade inequívoca dos atores. O interesse é trazer alguma expressão pura do personagem.

            A dramaturgia do silêncio consegue resultados interessantes, nesse sentido, quando não permite que a voz do ator nos afaste do status ficção do personagem. É o status “não existo” do personagem que nos permite a elevação para o mundo das ideias e a manutenção do pensamento livremente criativo. Os poucos grunhidos emitidos em cena – por serem expressões de sentimentos, não de ideias – não são suficientes para nos atirarem para fora do mundo inteligível.

            Pra não perder a piada, a direção sujou a imagem com a música do caminhão de gás: um signo manifesto do mundo sensível. Prejudica o valor dissertativo do espetáculo. Porque idiotiza o personagem. Traz a discussão para um nível inferior.

            A capacidade técnica dos atores para a distinção dos elementos narrativos e a configuração de uma percussão cênica saborosa é inegável, e explicada pelos trinta anos de envolvimento teatral da Cia. Azul Celeste, porém, a locomoção adotada, não criada, e afinada por Jorge Vermelho para o seu personagem Clóvis, não é limpa; traz consigo imagens anexas de outros personagens do cotidiano real (não virtual). Prejudica o valor narrativo do espetáculo. Porque não permite uma configuração adequada do personagem na cabeça do espectador.

            Se a narração é uma sequenciação de fatos, e o teatro está mais para a poesia que para a prosa, a dramaturgia do silêncio acerta primorosamente quando não emite justificativas nem possibilidades verbalmente. Privilegia a síntese e a sofisticação para o aspecto plástico das ideias.

MUNDOMUDO     Cia. Azul Celeste

Concepção: Jorge Vermelho     Dramaturgia: Cíntia Alves

Direção: Georgette Fadel     Elenco: Henrique Nerys e Jorge Vermelho

Assessoria de palhaçaria: Ésio Magalhães     Figurinos: Linaldo Telles

Costureira: Ivani Cardoso     Cenografia: Jorge Vermelho

Direção musical: Raphael Pagliuso Neto     Confecção de boneco: João Guerreyro

Produção executiva: Jorge Vermelho