fotografias do tempo

a história da matéria do homem

sobrevivemos aos predadores
resistimos às glaciações
terremotos maremotos tsunamis
vulcões furacões tempestades dilúvios
enfrentamos invasores dominadores
tiranos opressores absolutistas
ditadores controladores
estudamos contra a ignorância
não nos conformamos com o tempo
não perdemos de vista a liberdade
o objetivo é vencer o caos

amigos muito íntimos

distante do sol
nas esquinas
nos endereços da infância
sob os pés, os sonhos que já não se veem
não sobreviveram aos mais audaciosos
e sob as pálpebras, o talento para compreender a vida
enquanto os rios se desesperam com a obediência
irremediável das águas às leis que as fizeram ser
nas tardes tão cobertas que parecemos sós
nas estradas que nos prometem não ter fim
encontro Borges, Camões, Clarice, García, Rosa,
Drummond, Pessoa, Plínio, Nelson, Manoel de Barros,
Machado, Hegel, Rachel, Braga, Cecília Meirelles,
Cabral, Camus, Oswald, Fante, Ferlinghetti...
e a poesia se emenda com o que restou dos trapos
e da solidão
e se estende em mim
tão clara que sem rosto
tão forte que sem limites
tão boa que amiga
tão certa que bela

b-agua-çu

água
bágua
água çu
baguaçu
águas longas
que sabem de céu e mar
 
águas
fluviáguas
das águas
pluviáguas
do mundo azul
toda água tem seu sul
sal não sobe ao céu
“vós sois o sal da terra”
 
córregos
regatos
rios
riachos
ribeirões
baguaçu
fluviartérias de um corpo-tudo

consistentes

se a vida fosse de brincadeira
se o tiro não matasse
e o menino voltasse para a escola
para os olhos da menina louca encantada
se o rio nunca secasse
ou se a chuva sempre viesse a tempo
ou ainda se a fome não fosse tão vaidosa
e os meninos todos pudessem contar estrelas pra se entender
se a solidão não doesse ou não demorasse tanto
se o inverno só acontecesse a quem tivesse agasalhos novos para estrear
ou se o frio não causasse tantos danos à alma
e o mendigo sorrisse na contramão por conta de uma aceno amistoso do banco traseiro de um automóvel
se o sol de vez em quando não se deixasse brilhar
e mesmo as flores se recusassem a vir na primavera
não teríamos calos nas juntas
bem menos em nossas esperanças
nossos acertos não seriam gloriosos
e todo sofrimento valeria nada
não teríamos por que sorrir
nem para onde ir
seus beijos seriam inúteis

depois de ontem

onde estão seus olhos
que mastigavam minhas palavras
como se fossem trufas?
depois se fechavam no meu peito
feito uma bonequinha de louça
gostando de existir?
livros se deslivram
estrelas se afastam
lábios se distanciam
o baile acabou
o tempo constrói as impossibilidades?
onde estão suas respostas?

esclarecimento

o mundo existiu cinco vezes sem que ninguém soubesse
era só um espetáculo de Deus para Deus
contrários e equivalentes
se encontraram num catálogo de matérias-primas
e a vida se fez nas folhas de uma primeira estação
árvores imensas desvirginaram a Terra
das sementes sem frutos
das sementes que não tinham mais a necessidade da terra
nasceram os primeiros a passear os chãos deste planeta
sem saber que inventavam a liberdade
o mundo começou cinco vezes para que nos tornássemos
carnívoros e bípedes
e ainda outra para que conquistássemos
a capacidade de escolher
nas mãos o livre-arbítrio
no sacrifício do trabalho e da guerra
Deus aprendendo a ser Deus
na sétima vez nos colocamos definitivamente
no encalço da perfeição

eu

eu sou as coisas que vejo
que ouço
que invadem minhas narinas
sou os meus sentimentos
tatos e sabores que consigo alcançar
como um buraco negro
apanho toda luz que se dispõe a mim
sou uma placa de luz apreendendo luz
me organizo subconscientemente
o intelecto está na memória
minha sala de estudos
a oficina dos meus pensamentos
a memória está na consciência
a consciência quer se ajustar ao subconsciente
um nirvana pós-inteligente
quer ser infinita
isto não são metáforas
isto não é alegoria
isto é a vida
humana

felicidade

gosto das chuvas que molham os peixes
das palavras que ouvem
do amor que dói
da saudade que posso matar
do tiro que falhou
das feridas que cicatrizam
de entrar pelos seus ouvidos
de crescer como as plantas
da tarefa que Deus me deu
de criar e educar um homem para um mundo justo
gosto do sonho de perfeição e de eternidade
dos conhecimentos martelados pela experiência
das sombras das folhas dos trópicos
de imaginar os meus antepassados
festejando um dia de casamento
na casa que ainda não era escombros
como se o futuro jamais viesse
gosto de futebol
das arquibancadas de um clássico
da bola que se afasta obedientemente dos meus pés
dos passos da coragem que está chegando
do silêncio das palavras quando escrevo
da mansidão dos pássaros
das pessoas que não guardam mágoas
da mulher que vigia a vida
do homem que não se dobra
do sonho no pódio
gosto do meu tempo e do meu lugar
de perceber meu sangue
se enriachando em minhas esperanças

idade das luzes

não deixe que se vá intacta sua chance
o que está em suas mãos é só uma promessa de vida
da vida que precisa querer
desejar corajosamente
construir sobre sua pele
sobre suas dores
depois, até, que se vá
não será mais sua chance
será você

Jair Augusto de Almeida

um homem faz o que tem de fazer
fracos não deixam rastros
até nossos erros merecem respeito
chuva sede fome sangue
ameaças nunca o intimidaram
em mente havia um fim e a fé
nos braços mãos e irmãos
se ele não lutou
é porque não sabia que havia uma luta

lambendo as feridas

passei por momentos difíceis
mas precisava deles para fortalecer minha alma

tateei cada instante de sede
solidão fome escárnio esperança

não se forja um destino
sem deitar o ferro ao fogo

não se chega ao fundo sem passar pela superfície
não se chega ao topo
sem passar pelo fundo do poço

A matéria cede
As convicções vergam
As lágrimas quaram os conhecimentos

mãos

temos dadas as mãos
quaisquer mãos
no silêncio das mãos
só os movimentos frequentes do coração nas mãos
não, não soltem as mãos
liberdade e justiça ainda são os nossos ideais
os bárbaros não são todos os homens
nosso amor ainda é maior que o ódio
observem as mãos
a coragem das mãos
elas vão à frente
abrem as portas
removem a lama
sofrem os primeiros estragos
fecham as janelas
puxam os lençóis
mãos servas
prudentes
elas chegam antes
tocam nos vazios das ilusões
reconhecem nossas conquistas
transformam o corpo no mais intenso prazer

ninguém nas esquinas

o frio vasculha alguém para troçar a solidão
mete-se no intervalo arisco das palavras
e me faz sorrir
velho
quase velho
e belo
sou o meu homem
estrume
coisa de Deus
o sabor das horas
metade da metade do inferno e do paraíso
você é minha casa
vasculha o frio
me encontra
postado numa esquina
quase ninguém
desce
dança pra mim
me deixa tocar seus nervos
me deixa entrar

ouro de tolo

se os bárbaros eram mesmo bárbaros
e a história ilustra a evolução da alma
convém duvidar das verdades velhas
 
não deixe que se vá despercebida sua chance
o que está em suas mãos é só um trailer
da vida que precisa querer
desejar corajosamente
construir sob sua pele
sobre suas dores
depois até que se vá
sem ilusões
nem tolices

parábola da contemporaneidade

não posso perder o trem
resolvi que esse é o meu fim
alcançar a velocidade do trem
quando passou por mim
não sabia que devia apanhá-lo
na época eu era até mais veloz
mas não podia ser tão rápido a vida inteira
então eu tinha de me preparar
conseguir velocidade aos poucos
mirar o trem e não parar nunca
tropeçar quebrar os joelhos e não desistir
estou correndo e esperançosamente
a cada passo estou mais perto e mais forte
sinto minha mão já bem próxima
de tocar a alça do último vagão
quando isso tudo terminar
e eu me vir cantando entre as poltronas
ainda vazias
vou compreender de vez
por que esse trem nunca para
resolvi que esse é o meu fim
alcançar a velocidade do tempo

que

conquistou a consciência que
criou o universo que
inventou a terra que
fecundou a árvore que
tramou o herbívoro que
se tornou carnívoro que
alcançou a inteligência que
conquistou a consciência que
criou o universo
que inventou a terra que
fecundou a árvore que
tramou o herbívoro que
se tornou carnívoro que
alcançou a inteligência que
conquistou a consciência que
criou o universo que
inventou a terra que
fecundou a árvore que
tramou o herbívoro que
se tornou o carnívoro que
alcançou a inteligência que
conquistou a consciência que
criou o universo que
inventou a terra que
fecundou a árvore que
tramou o herbívoro que
se tornou carnívoro que
alcançou a inteligência que

ressuscitação

a palavra certa acalma a alma
as ideias adormecem
o coração descansa
meia hora e meia de paz
só a vida não se afasta
quem a pronunciou?

a pedra o peixe o rastro
o sol a memória a mãe
a nuvem o beijo a sombra
a menina de vidro no fim da rua
a lágrima dos palhaços vazios
o menino azul da praia nublada
a solidão do ingazeiro enraizado à margem do Araguaia
o sorriso livre de um pai perdoado
o rio a folha o chão
o amigo

Silvino Moreira

forte prudente humilde
aprendeu a dizer sim
e viveu para servir
um homem só não se dobra aos limites
caminhões estradas e caminhões
rios peixes e capivaras
filhos mulher e filhos
risos de amanhecer
lágrimas de anoitecer
irmãos amigos e irmãos
e a convicção de que o melhor caminho não é o mais fácil

só o que me importa

não sei do meu destino
no entanto jamais o perdi de vista
viver é viajar no tempo para o futuro
nunca desarrumei as malas
nem me deixei seduzir pelas mariposas
que se esforçavam nas estações
no caminho a gente aprende o caminho
bebo chuva e frio
os meus desejos não têm segredos
pois não me importa qual seja
importa-me apenas que seja a verdade

tocaia

teus olhos predadores resolvem a mira
e se encaminham regalados
ziguezagueando dos meus receios
entrincheiro-me nalgumas virtudes e espero
ensinaram-me a não me arriscar com as presas
determinam caminhos que só lhes interessam
os caçadores dissimulam seu caráter
mas expõem suas misérias
alimento-me delas
por favor, não me prives de tuas fraquezas
prossegue!
estou aguardando teus risos certos de vitórias
bailando entre dentes
numa feira de vaidades e mentiras
explora-me que exploro meu explorador
devora-me e te decifro
deixa-me ler teu futuro em tuas marcas
teus segredos em tuas pernas
que se cruzam enquanto avanças
abusando da humildade que ainda mora em mim
pelo amor de Deus, não me poupes!
não me interessa tua piedade
não tenho medo dos teus estragos
as paixões que se agonizem
as dores que se machuquem
por que viver se não for pra valer?

trégua

perseguia-me um cheiro de sangue e pólvora
os olhos pesados sentidos
o sol latia nos automóveis
a solidão mordia os dentes
tomei um gole de café
a fumaça o cheiro o sol
as árvores cumprindo seu papel
as sombras sugerindo calma
e o gosto da minha infância tentando me dizer
que é preciso entender a dor
um homem defende sua história
não há inimigos
há circunstâncias difíceis
mas não se mete nelas quem não pode sofrer
quem não sabe o que é possível
quem se ajoelha satisfeito com migalhas